Início » Sociedade » Sobre meninas, cor de rosa e heavy metal

Sobre meninas, cor de rosa e heavy metal

Em nossos tempos atuais, há um maior espaço para reflexões e discussões sobre temas que antes não tinham lugar para crítica. Passamos a reinterpretá-los, repensá-los e questioná-los, movimento que se propaga, atingindo cada vez mais mentalidades – apesar de algumas ainda se manterem rígidas quanto a novos debates e ideias – principalmente, os mais jovens, que desde cedo são permeados por essa realidade mais questionadora. Um desses assuntos é sobre o “masculino” e “feminino” em nossa sociedade e os papeis e lugares atribuídos em função disso, muitas vezes sem levar em consideração a própria vontade e posicionamento dos sujeitos.

A questão dos gêneros tem sido constantemente debatida em nossa sociedade, pelo menos ocidental. Para isso teve  grande influência a revolução femininista, em que a mulher passou a questionar as restrições para as quais era imposta. E quanto maior a opressão, tanto maior pode ser a reação; como um objeto que sofre pressão constantemente, e de repente explode – o resultado de pressão acumulada é quase um Big Bang. Dessa explosão de questionamento dos papeis sociais, nascem novas ideias muito importantes, válidas, e necessárias, pois é impossível uma realidade imóvel. E uma realidade que faça dominadores e dominados, que segregue e não inclua, precisa ser repensada e debatida e não naturalizada e imobilizada.

Tão importantes mostram-se essas ideias, que conseguem se propagar, influenciar não só uma geração, mas gerações futuras, as quais por um novo modo de enxergar a realidade, podem construir outra, e sempre refletir sobre o status quo se este for desigual ou desfavorável, repressor e opressor.

Um exemplo é que hoje, senão todos, muitos, questionam sobre os papeis sociais, homens e mulheres; vejo amigos que já são pais ensinando suas filhas a não aceitarem uma realidade pronta, mas pensarem “por que preciso usar rosa e os meninos azul? Por que preciso brincar de boneca?”. Já que a psicologia infantil diz que é importante que a criança seja exposta a muitas situações diferentes, tentar ensiná-la aos poucos a questionar e refletir pode ser de extrema importância para que ela se constitua como sujeito e desenvolva sua individualidade – não para que apenas se transforme em “rebelde sem causa”, mas para que consiga perceber o que faz sentido ou não, o que gosta e o que não gosta, e para ter defesa frente a avalanche de estereótipos, ideias prontas, e consumo, apresentados pela mídia, comércio, sistema econômico atual, etc.

Porém, dentre essas várias ideias muito importantes que surgem a partir de uma “revolução”, sempre há as ideias  “rebeldes sem causa”, ou radicais. Pode ser que uma explosão de pressão seja importante, ou um Big Bang, para dar movimento ao que está estagnado, para que o debate se inicie e as pessoas comecem a refletir, mesmo se com ideias sem pé nem cabeça, algumas coerentes e sensatas também aparecerão. Se de um inicial universo caótico, com a progressão do tempo, surge um ambiente harmônico, o processo para novas ideias pode ser esse também.

Desse questionamento explosivo sobre os gêneros, nasceu uma revolta e indignação a tudo que antes era atribuído às mulheres e imposto como sua função: claro que vamos nos revoltar contra isso – era isso que nos restringia, não queremos mais, e logo, odiamos. Cuidar da casa, família e filhos, crescer sendo educada apenas para isso, para servir, doar mais do que ter, como se ouvir as próprias necessidades fosse “capricho”, como um culto ao sacrifício. Ser o pilar do lar, casar, servir ao marido, ser subserviente, obediente, passiva, paciente, discreta, tudo isso foi associado à “feminilidade” para justificar esse papel, como se dizendo: olha, você nasceu assim, então merece isso, isso e aquilo = sendo que “isso”, “isso” e “aquilo” não são “coisas legais”, que alguém escolheria por conta própria. Esse é o cerne da questão: a “conta própria”, na qual vou chegar mais tarde.

Então, vamos odiar tudo isso. “Odeio tudo que me é imposto por ser mulher e serve para me inferiorizar. Nada de ballet, nada de rosa, que ódio a família, filhos e marido. Ódio a serviços domésticos. Mulheres que escolhem essa vida estão um passo atrás na evolução da humanidade. Que ódio a elas também. Ser recatada? Nenhum pouco! Vou colocar tudo o que quiser para fora, mostrar o que quiser, o corpo é meu e pronto. Que ódio a quem esconde seu corpo!”

Pois é, esses são alguns exemplos desse radicalismo que pode acabar aparecendo. Não é de modo algum uma revolta injustificada, pois a reação a uma condição injusta é muito forte, assim como é insuportável pensar em ser vítima disso de novo. E ainda bem que hoje somos mais livres para questionar, e odiar, e expressar isso. Mas a reflexão não pára em termos conseguido maior espaço, temos que continuar refletindo sobre como usá-lo.

Odiar tudo que era atribuído às mulheres anteriormente é realmente “pensar por conta própria”? Ou é apenas seguir a onda da revolução e pronto? Apesar do Big Bang de uma revolução social ser importante, é um pouco perigoso que isso não frutifique e faça também rebeldes sem causa – assim como as mulheres que aceitam as imposições passivamente caem em uma inércia, você também pode estar caindo na inércia da rebeldia sem causa, da “revolução e pronto”.

A situação social que conseguimos com a revolução feminista, mais do que superar o modelo de “casamento, filhos, família, tricot, crochê e cor de rosa”, foi: conseguimos autonomia para expressar o que queremos ou não fazer, nos desvinculamos de modelos para pensar por conta própria. Essa é a maior conquista. Logo, podemos ser expostas não só a crochet, tricot, rosa, filhos, família, casar, marido, mas também a outras opções de vida: ter um emprego, poder estudar, jogar futebol, escolher a carreira profissional ao invés da familiar, dirigir um carro, viajar sozinha, andar por aí e onde quiser. Ou seja, o direito à independência, que é digno de todo o sujeito, não? Hoje podemos escolher o que vamos fazer.

Logo, eu não preciso “odiar” rosa, tricot, crochet, ballet, bonecas, saia, filhos e família: eu posso ESCOLHER se quero isso, ou não. E como conquistamos o direito à independência, também há o direito à escolha. Posso escolher, ou se não, preciso respeitar, quem escolheu “rosa”. Porém, a diferença entre função social, gênero, e independência, parece um pouco embaçada ainda na visão de algumas pessoas. Os conceitos ficam misturados. E acaba-se caindo de novo em “estereótipos” e preconceitos .

Por exemplo: achava-se que uma menina por jogar futebol, ia ficar “masculinizada”, e isso era “feio”. Hoje é pelo menos mais difundido que é plenamente possível ser menina e gostar de futebol e não ficar masculinizada, porque isso é apenas uma atividade física. E se a pessoa ficar masculinizada, o problema é dela, e o motivo disso não foi o futebol, isso pode acontecer por N motivos que só dizem respeito a essa pessoa. Logo, da mesma forma, não é por gostar de rosa, tricot, ou querer ter uma família, que a pessoa tem um raciocínio ultrapassado. O problema é se isso foi imposto. Mas se foi escolhido livremente, é realmente um problema? O ideal é que homens e mulheres pudessem fazer suas escolhas independente do tipo e sem imposição.

Acho que a moral de tudo é cada vez mais conseguir discernir as próprias ideias, pensar por conta própria. Para que os sujeitos, homens e mulheres, tenham direitos dignos de indivíduos, é preciso que possam exercer seu direito de escolha, tenham espaço para isso, condições. Qualquer educação que impeça livre escolha e o livre pensar, precisa ser evitada: não é justo uma menina ser criada para uma função só – ela precisa ser criada como sujeito pensante. Seja brincando de boneca, gostando de rosa, tendo uma carreira profissional, uma família, ou ouvindo heavy metal. Ou tudo ao mesmo tempo!

Os motivos que impedem isso e impõe modelos prontos, sem levar em consideração a autonomia de cada um, sejam sociais, religiosos ou morais, estão sendo injustos e precisam ser repensados sim. Tanto para o lado “abomine rosa”, quanto para o “seja rosa”.

_________________________________________________________________________________________________

Pensando na questão:

Veja a partir dos 2: 40 minutos. Impressionante. Terá sido uma imposição dos pais que gostam desse gênero musical? Porém, as crianças sempre se influenciam pelo ambiente em volta e pelos pais, logo, não dá pra dizer que foi uma “imposição”. E além disso, ela é muito boa e não parece infeliz. Não está fazendo nada que a exponha, ou a coloque fora da sua idade. Por que pontuá-la negativamente? E pra arrasar desse jeito, ela precisava estar coberta de tatuagens, piercings, ou vestida de preto?

http://www.bluebus.com.br/os-jurados-nao-esperavam-por-essa-veja-o-q-essa-menina-fez-no-americas-got-talent/

Essas menininhas estão tendo uma avalanche de ballet, rosa e princesas. Mas elas parecem estar felizes com isso, nem um pouco restritas, e estão se desenvolvendo socialmente, em grupo. Por que não?

http://www.youtube.com/watch?v=qVkGpyfs214

Anúncios

Um pensamento sobre “Sobre meninas, cor de rosa e heavy metal

  1. Adoro este tipo de tópico.
    Também sou da mesma opinião. Infelizmente, os ideais que o Feminismo propóe perderam-se ao passar do tempo. Antes, sim, a causa era justa. Realmente a mulher não devia se comformar com o padrão que encontrava quando nascia. Mas hoje em dia, feminismo é associado a negação de tudo que representa ou possa representar o conceito de ser mulher. No meu blog publiquei um post, “Why Feminists hate Femininity”, que fala sobre isto.

    É importanto questionar e tentar outras alternativas, mas a negação por si só não ajuda em nada.

    Se tens interesse em textos parecidos com este, que abordam este tipo de tópico (Feminismo, relações entre sexos na sociedade), lê sobre o que está a acontecer na Suécia. Postei sobre isto, “In a Genderless world…”, o que acontece é que eles querem eliminar todo e qualquer estereotipo que aconpanha os sexos feminino e masculino, que, apesar de parecer uma brilhante idéia, é um pouco radical…

    Desculpa já agora por qualquer erro ortográfico. Não escrevo em Português com tanta frequência que gostaria…

    Fica bem,
    Celma.

    Curtir

O que acha sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s