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A patricinha e o taxista

Um dia desses estava voltando de uma manifestação – poderia começar com “um dia desses estava voltando de um passeio”, ou “da faculdade”, mas vejam só que interessante, as manifestações viraram parte do cotidiano das últimas semanas. Enfim, estava voltando de uma delas, não muito produtiva – afinal, eu estava de vermelho, e fiquei sabendo no dia seguinte que o resultado disso foi bem semelhante a estar de vermelho na frente de um touro na arena.  E fui de vermelho sem querer, não sou partidária nem nada! Não sabia do combinado, isso que dá querer dar uma de monja na montanha e ficar uns dias sem informação nenhuma.

Na volta dessa manifestação, bem a tempo e a salvo, precisava voltar pra casa de táxi.

Sempre quando pego um táxi, sento ao lado do motorista, e não no banco de trás. É algo automático, nunca parei pra pensar muito sobre isso. Até que um dia, um taxista me disse que até se surpreendeu, pois as pessoas sentam sempre nos bancos de trás, principalmente mulheres. Daí que me caiu a ficha, um pouco emperrada, que sentar no banco ao lado poderia ser perigoso.

Como em nosso dia-a-dia sempre somos desconfiados, perceber de repente que algo que eu nem ligava poderia ser arriscado me deu um pouco de inquietação. Mas o moço taxista não transmitiu nenhuma suspeita, pelo contrário, era bastante simpático – assim como muitos taxistas que sentei ao lado no táxi, como algo natural, e nunca passei por nenhum constrangimento. Acabei até comentando que eu, na ingenuidade ou indiferença, sempre sentava ao lado sem nem pensar em algum perigo.

E disso, acabamos tendo uma conversa bastante interessante sobre como as pessoas têm medo, e já se comportam na defensiva. Claro que ser precavido é importante, e não sabemos muito o que esperar de nossa realidade. Mas ninguém sabe em nenhum lugar, não é verdade? Parece que é criada sobre nós uma atmosfera de “medo”, contra crimes, assaltos e o terror de sermos vítimas – e isso não é injustificado, temos uma realidade que é perigosa, conforme ficamos sabendo pelos jornais, revistas, e pessoas que já sofreram. Mas será que a realidade não tem algo mais a mostrar do que isso que mostram os jornais e revistas? Se é uma realidade perigosa, nosso pré-medo não a limitaria ainda mais, sendo que se vivida, não se mostraria assim tão perigosa?

Voltando ao táxi da volta da manifestação (esse da situação acima foi outro): sentei ao lado (sem perceber de novo), e indiquei meu caminho de casa. Este também era bastante simpático, e puxou conversa, que acabou caindo na manifestação em que eu tinha ido. Disse que achava isso o máximo, e que era muito importante o povo começar a mostrar que não é bobo. Mas, antes de prosseguir com sua opinião, me perguntou a minha: por que eu estava lá?

Respondi que a pressão popular pode ser muito eficaz para dar uma chacoalhada nos políticos – se é medonho até para nós estarmos no meio de uma multidão enfurecida, os políticos verem e sentirem o tamanho do povo que desmerecem todos os dias deve ter algum efeito. Concordou com a minha resposta. E perguntou:

– mas você usa o transporte público, Beatriz?

– Sim! Todos os dias.

– Mas sabe… você não tem cara de quem usa transporte público todo dia. – e eu ri.

– É, eu sei, eu tenho cara de Patty, não é? Eu pago às vezes pela minha cara de Patty.

– Mas olha, conversando com você dá pra ver que não é! Sabe que eu gosto de encontrar passageiros simpáticos, que dá pra conversar. Mas muitos, nem fazem muita questão, como se eu nem fosse uma pessoa, nem nada. Eu respeito, cada um age como preferir. Eu até tento puxar assunto às vezes. Mas com muitos, nem dá pra ter uma conversa interessante. Parece que não tem assunto. Que não conseguem falar de algo que não seja da balada que vieram, ou do que tem, do material, sabe? Gente que não olha pro lado, nem pro outro, nem ao próximo.

– Ah, eu sei bem como é isso! Mas ainda bem que apesar de muitos parecerem iguais, sempre aparecem pessoas que pensam diferente.

– Sim! Sabe que eu venho de um contexto de periferia. E até mesmo nesse ambiente tem as pessoas assim, que querem andar de nariz empinado. Às vezes ganham uma promoção no serviço e já ficam assim. E eu penso, caramba! Mas será que essa pessoa já não devia saber?

– Nossa! Acho que acabam sendo grupos muito separados, a classe média e a periferia, e por isso acabam nascendo vários preconceitos, suspeitas, de ambos os lados. Mas se não fossem mundos tão distantes, as pessoas iam começar a se tratar “mais igual”, já que não há motivos para olhar de cima pra baixo pra ninguém.

E nisso, o táxi já havia chegado em casa, e o taxímetro até passado um pouco – o que ele não cobrou. Ambos ficamos felizes com a conversa, e concordamos que é bom encontrar pessoas com as quais seja possível ter boas conversas, que se tratam com igualdade. Talvez a volta tenha sido melhor que a manifestação.

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2 pensamentos sobre “A patricinha e o taxista

  1. É fato que a maioria das mulheres, quando tomam táxi, sentam-se no banco traseiro. Os taxistas, pelo menos os da minha cidade, já devem estar acostumados com isso, tanto que, quando uma moça se senta no banco ao lado, chegam a estranhar, como tu contaste. Mas eu não digo que “é o certo” se sentar no banco de trás. Isso é o que as pessoas recomendam, por causa do risco de “cantadas”, mas cada um o faz da maneira que melhor lhe fizer sentido. E concordo contigo quando dizes que se criou uma “cultura do medo”, em que as pessoas se veem praticamente obrigadas a seguir certas recomendações de segurança, e que a não observância das mesmas pode acarretar, além do crime (assalto, estupro) sofrido, a crítica das demais pessoas pelo seu comportamento que de alguma forma “facilitou” a ação do bandido.

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  2. Olá Guilherme! Obrigada pelo comentário. Eu acredito que, por um lado, sempre precisamos de atenção ao estar em público, faz parte do instinto de “sobrevivência na selva”, que se adapta agora a nossa nova forma de vida, não mais uma selva, mas com perigos e ameaças também. Porém parece ter-se criado um medo generalizado, que reforça a distância entre as pessoas, e causa uma segurança baseada em preconceitos, mais do que um entendimento do outro como pessoa também. Abraço!

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