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Ser briguento ou não, eis a questão

Uma coisa que marcou minha infância e lembro até hoje, foi uma conversa entre amigas sobre quem tinha “dado mais foras”. Na época, até contei a conversa pra minha mãe (rs) que se surpreendeu:

“Como assim contar vantagem porque “deu mais foras”? Mas isso não é uma coisa ruim?”

Para ela, ou a sua geração, “dar foras” era dizer alguma coisa no lugar errado e na hora errada, tipo “dar uma bola fora”, e acabar passando vergonha. Expliquei que isso, para minhas “amiguinhas”, na época, queria dizer deixar a outra pessoa sem resposta, sair ganhando em uma discussão, dar uma resposta cortante. Eu fui a única que não lembrou de “foras” legais pra contar, ou não os tinha – talvez, os tivesse mais levado, que dado. Por isso me senti boazinha demais, e logo, tonta. Fiquei até com raiva de mim mesma. Enfim, quando expliquei pra minha mãe o atual significado de “dar foras” , ela disse que era ruim do mesmo jeito, e pronto. Mas não foi o que significou pra mim.

Talvez essa minha reação ao tema aconteceu por eu também querer ter dado “foras legais” pra contar pras amiguinhas e poder me achar também numa rodinha de conversa pré-adolescente. Ou, algo mais profundo do que isso. Talvez eu não quisesse ser uma pessoa do tipo submissa, que mais ouvia do que falava, que não se impunha, e percebi que até preferia ser briguenta em comparação a isso. Apesar dos pesares, e poréns freudianos, junguianos, ou marcianos, decidi: não ia mais ser boazinha e queria ser briguenta.

E assim, entra-se naquela história semelhante ao exemplo “quando penso que não quero pensar em um ponei rosa, aí que ele vem na minha cabeça”: parece que exatamente quando se quer pensar em uma coisa, acontece o contrário. E é claro que depois de toda essa minha articulação em ser briguenta, eu pensava em menos foras legais ainda na hora das brigas, apesar de responder, retrucar e lutar contra a passividade com unhas e dentes. E ainda mais, nunca me senti muito confortável se me envolvia em brigas, talvez isso fosse realmente o oposto da minha personalidade. Mas eu queria ser briguenta e ponto final.

Ao longo dos anos, passei por outros grupos de amigos que também pareciam achar legal contar as brigas que tiveram quando saíram na melhor. Isso sempre transmitia certo grau de convencimento, muitas vezes explícito, acompanhado de comentários como “cuidado comigo”, ou “olha como eu não levo desaforo pra casa”, “sou esperto”, “penso rápido”, etc. Ainda mais, provocava risos, concordância, admiração, aceitação, ou disputa de quem também se impunha na conversa com um “fora” que prendesse maior atenção, ou seja, não apresentava resistência pelo grupo, mas reforço.

Velha como estou (ok, não tanto) meus miolos retorcidos e engrenagens cerebrais enferrujadas finalmente raciocinaram e agora entendem que, isso não é nada mais nada menos, do que um dos vários “mecanismos de aceitação de grupo”: parecer “bacaninha”, fazer “piadinhas”, provocar situações que o grupo não consiga rebater de modo negativo (mesmo se alguém não concordar ou não gostar) e as reforce de algum jeito – pela aceitação, admiração, ou competição. Isso é parte constituinte e normal do mundo da infância, adolescência, e por que não, do mundo humano.

Tipo isso: o “outro” do qual você se diz tão independente é justamente aquele do qual você precisa para se constituir. Com exceção das relações com laços muito fortes, como pais/ mães e filhos, parentescos familiares ou emocionais, o “mundo externo” é grande, ameaçador, incerto, e consolidar laços nele é mais difícil. Por isso, acaba apresentando essas artimanhas de convivência. Para todos, sem exceção. Quem sabe com variação de grau, apenas.

Logo, um pouco mais velhinha, percebo que aquilo que tanto me afetou, que fazia minhas amiguinhas parecerem fortes e valentes e eu não, e me deixava com raiva delas – e de mim mesma – nada mais é do que algo também emocional, que procura criar vínculos e laços – uma fraqueza?

Mas sempre me perguntei também porque justo algo como “foras” e “brigas”, ou seja, fazer com que o outro se sinta mal por n motivos, é encarado com critério de valor positivo. Claro que por trás disso há o “ganhar” ou “perder”, e a competitividade, mas porque acharem isso tão legal?

Isso parece ser importante para algumas pessoas ATÉ DA MINHA IDADE, que ainda mostram um pouco esse hábito de contar as briguinhas sempre se apresentando como vencedores, ou para defenderem a si próprias. Estará alguma passividade não aceita por trás disso, pra seu oposto precisar ser tantas vezes reforçado aos outros? Acho que a “valentia”, “força”, “não desisto nunca”, acabam sendo associadas a “ser briguento”, “não levar desaforo pra casa”, o que causa uma distorção nos valores.

Ao longo dos anos também, acabei percebendo como as crenças e critérios de valor que damos às coisas são relativas – extremamente. Por isso, para minha própria saúde física e psicológica, impedimento de rugas precoces e mantimento de chakras no lugar, vou levar as coisas menos a ferro e fogo. Por exemplo, “ser briguenta” que pareceu tão importante pra mim por um tempo, demonstrou o contrário, sendo que hoje, cheguei a um ponto em que concluo que o melhor pode ser o silêncio. Não responder se uma briga é provocada – o contrário sempre me trouxe problemas, e as rodinhas de conversa não valem tanto esforço assim.

Talvez seria muito mais sensato não confrontar, mas apenas se afastar, de quem demonstra não valer a pena, ou não ter uma personalidade compatível com a minha. Não digo concordar com tudo e todos, sem ter opinião própria. É ter o orgulho de que, apesar da sua cabeça dizer “sim”, sua mente está dizendo “não”, e é o que está na mente que regula os próprios atos. É entender que a força de verdade, pode estar em várias outras coisas, e não nesse conflito direto. Claro que é impossível nunca discutir, ou nunca ter um confronto de opiniões, porém é melhor que aconteça só quando for a última opção.

Discordar é algo saudável para o desenvolvimento da própria personalidade, mas isso não precisa ser um confronto. Para os raivosos, isso parece impossível. Bom, para todos nós é difícil saber a hora certa de incidir ou recuar. É um aprendizado constante.

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