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Mídia informativa, mídia seletiva, mídia dedutiva, mídia imparcial (?). Estrelando: Ahmadinejad

Em 3 de agosto, a BBC publicou em seu site uma matéria com fotos e frases de Ahmadinejad, de nome: “Mahmoud Ahmadinejad: In his own words” (Ahmadinejad: “em suas próprias palavras”).  Cada foto foi ilustrada por uma frase do presidente – apenas o que ele mesmo já disse ao longo do mandato.

Porém, a notícia não apresenta frases aleatórias do presidente, mas apenas as que têm um teor conservador, rígido e extremista. “Mas apenas estamos contando o que ele mesmo disse!” é a camuflagem de neutralidade dada, porém o jornal conduziu cada parte dessa notícia com ironia.

Na minha opinião, as frases associadas a fotos do presidente com as mais diversas caras e em mais diversos ângulos, parece transmitir certo caráter cômico, colocando-o como um personagem mandão e sem noção dizendo suas frases conservadoras em uma história em quadrinhos. Como se a BBC fosse o narrador, mediando personagem e leitor, “explicando” o contexto das frases como se estivesse apenas apresentando os fatos.

De fato, Ahmadinejad pode ter esse comportamento ou essa postura, o que já não nos surpreende vindo de um país do oriente árabe, que tem essa marca. Bom, se não tem, pelo menos é o que nos parece.

Não temos como verificar a veracidade de cada fato que acontece no mundo pessoalmente. Logo, acabamos adotando uma ideia geral com base no que vemos e lemos em jornais, revistas – a partir de fragmentos de informações, montamos um “todo” sobre determinado assunto. Esse “todo” constitui-se de pedaços do que vemos e ouvimos, misturado com nossas próprias percepções.

A mídia, por ser o veículo central de propagar informações, nos fornece muitos desses “fragmentos” a partir dos quais montamos ideias. O que é uma solução e um problema: através da mídia temos acesso a todo tipo de informação, porém essa mesma informação nos é dada e tirada de acordo com a mídia – ela nos dá e tira o que quer, digamos assim.

Logo, a veracidade do que acreditamos, é a veracidade que a mídia atribui a tal coisa, o que deveria ser a simples e pura transmissão dos fatos – a “neutralidade” do discurso midiático. O que já sabemos que não acontece, pois em cada neutralidade pode haver um ponto de vista. É melhor saber disso do que não saber – e muitos não sabem – porém mesmo sabendo e sempre com um pé atrás, ainda acreditamos em uma notícia ou outra, para não ficarmos neuróticos, ou teoristas da conspiração, ou nos isolarmos de tudo e todos. Afinal, ainda precisamos de informação. Para sermos sociais, para sabermos sobre o mundo ao nosso redor, para termos o que conversar no elevador… é, o poder do coletivo. Dessa forma, a mídia tem dois recursos que a fazem tão poderosa:

– a força do coletivo que tem acesso a ela, e depende dela

– seu aparente formato de “neutralidade”, que pode comportar os mais diversos pontos de vista “por baixo do pano”

Não sou favorável ao governo de Ahmadinejad, nem acho ele legal, nem nada, mas essa notícia divulgada pela BBC sobre ele mostra essa parcialidade da mídia, camuflando sua opinião embaixo dos fatos. Todas as frases que cada foto apresenta parecem incutir a ideia: “Ahmadinejad é conservador e é mau”; parecem transmitir essa única verdade, porém consigo enxergar margem para outra interpretação.

Vocês podem conferir as 10 frases e fotos AQUI e abaixo coloco minha interpretação sobre algumas delas.

– frases 2/ 10 e 3/ 10: Todos sabemos que o Holocausto foi um dos mais cruéis acontecimentos da humanidade. Conseguimos nos sentir completamente compadecidos às vítimas, que vivenciaram um terror de tal grau que é quase inconcebível. Logo, o ocorrido assume caráter quase sagrado em questão de respeito. O presidente simplesmente desmentir isso, dizendo que é “algo fabricado” é completamente chocante e desrespeitoso. Pronto, é essa ideia que fica.

Porém, os países árabes, assim como o Irã, têm um problema histórico com os judeus: a criação de Israel. Isso envolve questões religiosas inflexíveis de ambas as partes, provoca guerras, ataques, refugiados e feridos. Esses dois lados sustentam um ódio mútuo. Logo, sob esse contexto, não é esperado algum respeito de graça entre ambos. Claro que é o que deveria ser feito, e o presidente negar o Holocausto não contribui em nada para algum acordo. Porém este não é estimulado de nenhum lado, por bombas, armas e guerra, e não uma simples afirmação.

Frente ao problema, uma afirmação como a 2/ 10 assume uma proporção minúscula. A sociedade se influencia muito com palavras: e os atos desumanos que acontecem na região todos os dias? Isso envolve os governos de Israel – apoiado pelos EUA – e os palestinos – apoiados pelos árabes, logo, todos os governos envolvidos tem responsabilidade sobre o problema, mortes e massacres que acontecem, independente de uma frase negando o Holocausto – tragédia tenebrosa, porém que já aconteceu e terminou, e não deve ser associada a fatos presentes.

Além disso, a credibilidade ao estado de Israel muitas vezes tem o Holocausto como argumento, e o compadecimento da população sobre esse acontecimento (terrível) muitas vezes tende a ver os judeus como “sofredores”, e seus adversários como “opressores”. Se os árabes negam a criação desse estado – em suas versões mais radicais – é óbvio que tentarão descartar qualquer argumento que o sustente.

– frase 4/ 10: essa foi bastante infeliz. Porém a repressão contra homossexuais que acontece no Irã (homossexualismo é considerado crime, condenável a morte) envolve um sistema de governo conservador e um estado religioso, e não a pessoa do presidente em si. Não que isso o isente de responsabilidade, porém esse é outro argumento usado para rebaixar o país e sua pessoa. Ahmadinejad só representa e age de acordo com aspectos culturais do país. Porém, usar a burca é cultural, e não deixa de ser um absurdo, por exemplo – não é porque um país segue certa cultura que isso é justificável, e seus habitantes merecem liberdade. Porém isso envolve muitos fatores além da pessoa do presidente.  Pra mim, outro argumento fail contra ele.

E pergunto: mesmo nos países ocidentais, já estamos completamente livres da homofobia? Temos a cara assim tão limpa para condená-lo pela sua afirmação?

– frase 7/ 10: o ápice da ironia – demonstra que a matéria quer apontar justamente o oposto: o Irã e seu presidente não são nada liberais. Isso parece óbvio para nós, devido ao modo de vida que sabemos que a população é submetida, e as afirmações conservadoras do Ahmadinejad que também sabemos. Pois é, sabemos pela mídia.

Conheci um brasileiro que passou um ano no Irã.  Não poderia deixar de perguntar sobre o conservadorismo de lá, principalmente relacionado às mulheres. E, segundo ele, as pessoas agem como querem dentro de suas casas. Ele não deixava de ir às baladas, festas, e beber como fazia por aqui – e as meninas podiam fazer o mesmo. Na Índia, por exemplo, país que sabemos ter uma cultura machista, mas que recebe bem menos bombardeio ideológico da mídia, meninas não podem sair sozinhas de casa quando escurece sem correr um grande risco. No Irã, havia meninas voltando sozinhas pra casa de noite naturalmente. Apesar disso não ser a mais alta expressão de liberalismo, imaginamos que a Índia seja mais machista que o Irã antes de irmos lá pra ver?

– 10/ 10: Nesse caso, a legenda quer dizer que Ahmadinejad é favorável ao governo de Chávez e ainda por cima o achava bom caráter. Mostra dois governos abolidos pelos EUA, e unidos.  A interpretação pró EUA seria: “olha como o Ahmadinejad é mau, ele era até amigo do Chavez”. Porém esses governos só são abolidos pelos EUA por irem contra suas diretrizes, que apesar de serem consideradas “leis gerais”, beneficiam os EUA e os países no poder, e até o intensificam.

Resumindo: Se a questão fosse apenas combater o conservadorismo, defender os direitos humanos, a flexibilidade do pensar, encontrar soluções pacíficas, seria ótimo. Porém, criar a ideia “Ahmadinejad é mau” só vem a calhar para os EUA sustentarem uma posição política contra o Irã, usando todas essas questões ao seu favor para denegrir o país, em função de seus próprios interesses. Mas quem vai tentar ver outro lado nas respostas cruéis do horrível do Ahmadinejad, não é mesmo?

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Um pensamento sobre “Mídia informativa, mídia seletiva, mídia dedutiva, mídia imparcial (?). Estrelando: Ahmadinejad

  1. Olá! Muito obrigada pelo comentário lá no meu blog!

    Quanto ao teu post, de facto a mídia é bastante selectiva, mas também não acho justo pôr toda culpa nela. Acredito que, de certa forma, a mídia dá-nos aquilo que queremos.
    Posso estar errada, mas o Irão é uma das únicas teocracias que ainda existe, e, bem, em pleno 21º século, quanto a Política, o preferível é o secularismo. Logo, só por o Irão ser uma teocracia, o mundo já se vira contra.
    A mídia simplesmente é o veículo usado para vender productos, ideologias, opiniões, etc.
    Na base da venda de qualquer producto, é preciso consultar aquilo que o comprador quer, não?
    Então, talvez o comprador do 21º século não gosta do conservadorismo, e a mídia, como vendedora efectiva, está apenas fazendo o seu trabalho…

    Fica bem,
    Celma!

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