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Pelos meus fones naturais ouço a rádio ônibus

Não conseguiria andar pela rua todo tempo com fones nos ouvidos. Preciso ouvir os barulhos em volta. Isso ajuda na minha concentração, e atenção com as coisas e pessoas ao redor. Ficaria muito desatenta com um barulho no meu ouvido que não fosse o do ambiente.  E até meio desnorteada, tipo um gato com o rabo amarrado.

Acho que há coisas demais pra prestar atenção ou se distrair, para ficar só focado em uma música. O ambiente tem muitos detalhes pra prestar atenção. Pra ficar alerta, mas que são interessantes também. Ouvir o som da rua, das pessoas, do lugar em que estou, isso até me agrada de vez em quando. Por exemplo, é interessante ouvir conversas aleatórias de pessoas por aí.

Além do que, acho meio perigoso ficar andando por aí ouvindo uma música direto nos ouvidos. Ouvir ajuda muito na noção de espaço, o que é fundamental enquanto se anda pela cidade. Muitas vezes que alguém estava andando no meio da rua sem dar passagem, ou sem andar em linha reta, quando dei uma olhada mau humorada com vontade de fazer uma careta vi que a criatura estava de fones. Tinha que ser.

Até gente dirigindo de fones tem.  Isso deve causar acidentes! Mas ninguém parou ainda pra fazer uma pesquisa sobre isso. Ou, é mais perigoso que as pessoas entendam mal e pensem que é pra deixar de usar fones, se tornando um show andante de música chiada.

Enfim, eu não perco a chance de me surpreender com o que fala o povo por aí. Talvez, aqui em São Paulo isso seja quase uma experiência antropológica. A divisão da sociedade em classes sociais e a diferença entre elas faz com que as pessoas sejam muito próximas das outras que são parecidas.

O único momento em que as classes sociais  se encontram é na oferta-procura de trabalho. E este não é um espaço em que é sempre possível trocar muitas opiniões. Alguns integrantes desses dois grupos  até se desagradam se o contato atinge esse ponto. Estão tão fechados em seu pequeno meio, que a noção de um “outro” é apenas funcional, quase insignificante. Não chega a compreensão de que esse “outro” possui outra realidade, e logo, opiniões e um jeito de entender o mundo, diferentes.

Acho que o ônibus é um espaço em que essa troca é possível, pois todos encontram-se como iguais. Todos espremidos. Apesar de que o transporte público ainda concentra maior parte da população com menor poder aquisitivo. Marca da desigualdade de renda, que causa desigualdade nas condições de vida, e isso se reflete em desigualdade no tratamento entre as pessoas, tornando-nos uma sociedade polarizada classe média x periferia. No ônibus, apesar dos pesares, é um pequeno momento em que a barreira se rompe, pelo menos um pouco.

Nas conversas de ônibus, tem uma coisa que me chama atenção e que já ouvi mais de uma vez. Exemplos:

“Esse cruzamento é muito perigoso, e o ponto de ônibus é muito perto dele. Um motoqueiro já sofreu um acidente aqui. E ninguém faz nada. Quero só ver se um ricaço que morrer, daí vão fazer alguma coisa.”

“Esse povo fazendo manifestação e passeata até hoje, não tem o que fazer. Estão lá na frente do palácio do governo. E ainda tem a cara de pau de escrever que aceitam doação de comida. Vai ver se a conta deles não é gorda! Os ricos que passam dão comida, ainda por cima.”

“Para os pobres ninguém faz nada, agora vai ver se for pro rico. Se a gente morrer tudo bem, agora vai ver se forem eles.”

E coisas do tipo.

Na minha vida até agora, tive oportunidade de não ter os olhos vendados pra o lugar em que vivo. É cruel o dinheiro que você tem definir quem você é, e sei que no lugar em que vivemos isso acontece. Sei da desigualdade social e do sofrimento de pessoas que não tem acesso a todos os benefícios que o dinheiro poderia oferecer. Mas, no momento em que isso vira comentário vazio, e se torna uma ladainha, o problema de verdade acaba sendo esquecido. Veste-se uma capa de “sou relegado”, ou “coitado, é pobre” e pronto.

Claro que é bom que todos tenham consciência das injustiças sociais. Mas acaba soando como muro das lamentações. E cria uma generalização. E a ideia de um inimigo que causou esse problema, mas que não é o motivo real dessas injustiças. E polariza tudo ainda mais.

A educação que ainda falta não vai fazer apenas com que as pessoas tenham consciência do problema. Mas que simplesmente ele seja mudado. E pronto.

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