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Vida Vitrine

Há um tempo atrás, li um artigo que comentava sobre a juventude atual urbana, ocidental, classe média, estar constantemente deprimida. O motivo seriam aspirações altas demais, por causa de uma realidade com “tudo pronto”, em que as aspirações reais e concretas – ter uma carreira, ganhar dinheiro, se manter – ficaram pra escanteio,  porque foram incorporadas pela geração anterior, os pais e mães desses jovens atuais.  Ao invés do contentamento com o concreto, fica sempre o vazio de um abstrato que nunca acontece – trabalhar é chato, o emprego não está bom, não me encontro nos estudos, etc.

Adicionado a isso vem a internet e o uso das redes sociais, em que esses jovens querem transmitir uma ideia de si mesmos que corresponda a essas aspirações impossíveis e distantes do que é real. Aí que todo mundo parece legal, fazendo coisas legais, sempre no badalo, com amigos todo dia e companhia toda hora. E aí que a grama do outro parece sempre mais verde, e vem o tal descontentamento.

O Facebook virou um vício moderno – você pode fazer dele seu jornal pessoal, em que você é o editor, redator e jornalista. Seu público são seus amigos que obrigatoriamente vão ver aquilo que foi publicado, pois o foco é o que está sendo divulgado pelos outros.

Principalmente, a esperteza da coisa é que é multifuncional. Se não gostar muito de compartilhar seus pensamentos, você pode usar os joguinhos, ou conversar com seus amigos, ou entrar em “grupos” que tenham informações úteis para você. Ou seja, o negócio faz tudo.  Concentrou várias funções ao mesmo tempo, e atende às principais necessidades do mundo em rede, por isso,  a atual dificuldade em se livrar dele, ou substituí-lo. Sem utilizá-lo você… você…. vira um homem das cavernas? Bom, conheço (ainda!) pessoas que não tem facebook e vivem normalmente. Imagino que percam oportunidades que essa conexão múltipla e multifacetada pode trazer. Mas, ainda sobrevivem. E vivem normalmente. E bem, por sinal.

Pensando na vida pré facebook e pós facebook…. Parece que hoje criou-se a necessidade de divulgar. Você divulga a mídia que quiser, texto, vídeo, imagem, criação própria ou alheia, e nada mais é segredo. A graça é publicar. E essa graça só se completa com a reação do público – o botão curtir. Isso tem seu lado interessante, pois uma ferramenta que permite compartilhar realmente fazia falta na era pré facebook – as boas ideias, a comunicação, a velocidade da informação, tudo agora gira e pode ser exposto – a exposição às vezes é interessante e saudável.

Porém, parece que a vida com o facebook torna-se uma vida de exposição, ou “vida vitrine”. Cada coisa legal que alguém pode estar fazendo em um canto xis do universo precisa ser fotografada, divulgada, comentada. E isso se junta com a tal geração infeliz, e vira algo meio doente/ ridículo.  Aquela viagem que você fez, aquela festa em que foi com seus amigos, a roupa nova que você está usando, seu reflexo do espelho do banheiro, precisam ter uma foto publicada no face. 

As pessoas não conseguem mais viver suas vidas sem pensar na possibilidade de exposição. Cada coisa interessante que vivem parece estar carimbada com o logo do facebook.

E pior: algumas pessoas usam essa ferramenta como um “book” pessoal. A pessoa divulga a própria cara nos mais diferentes ângulos, gêneros, números e graus, e faz isso só em função de ter curtidas, ou comentários. Talvez tenha-se criado uma autoestima dependente de exposição e comentários, ou pior, aprovação social obsessiva – vai me dizer que tirar uma foto da própria cara no espelho do banheiro e divulgar dizendo “bom dia” não é obsessivo???

Algo que antes provocaria reações do tipo: que vergonha, só mostro essa foto pra minha mãe e a minha vó, agora tornou-se normal.

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