Fanatismo

Algumas críticas que antes seriam tabus hoje em dia são discutidas com maior liberdade e posicionamento crítico. Por exemplo, a crítica que surge ao fanatismo religioso. Há muitos séculos, qualquer ideia contrariando os princípios da Igreja era inadmissível. As pessoas obedeciam às leis da Igreja por sentirem medo de contestá-las, até em suas próprias mentes. Quando conseguimos nos desvencilhar do poder que algo exerce, somos capazes de analisar racionalmente o que aquela crença está exercendo sobre nós e os outros. Por exemplo, hoje somos capazes de criticar e até combater os dogmas da Igreja, porque conseguimos criar outras interpretações para o que era absoluto. Apesar da polêmica e da resistência de muitos, a discussão é possível.

Além disso, acho que hoje em dia torna-se até difícil centrar todas as características de uma coisa em uma Instituição. Exemplo: O que seria “A Igreja” hoje em dia? O Vaticano? Mas até o Papa atual parece dar uma margem maior para interpretações, sem impor uma verdade. Existem inúmeras vertentes religiosas, que podem ser tão impositivas como a Inquisição da Idade Média – ou o contrário. Fora as pessoas que compõe essas vertentes religiosas, que podem ser mais liberais ou conservadoras dentro de cada crença.

Usei o fanatismo religioso como exemplo porque ele é bastante criticado hoje. Porém vejo o mesmo fanatismo em algumas outras crenças que existem por aí, no nível de um fanatismo religioso. Exemplo: a oposição “direita” e “esquerda” é levada tão a ferro e fogo algumas vezes, que se assemelha a um fanatismo religioso dos mais delimitadores, obtusos e generalizantes. Julgando as pessoas de uma mesma crença como se fossem todas objetos saídos de uma mesma linha de produção. A oposição existe porque se baseia em princípios diferentes, ok, porém os que se dizem pertencentes a ambos os lados fazem a mesma coisa em seu julgamento dos outros. “Vc está daquele lado, então vc é feio, mau e bobo, e a culpa é sua”. E a multiplicidade de crenças, culturas e pessoas com suas n combinações psicológicas fica onde? Não seria isso que usamos para combater o preconceito e os estereótipos?

Cuidado com o fanatismo que pode estar nas suas crenças sem que perceba. O preconceito que você combate pode estar em suas próprias ações.

Povo legal, mas uma bagunça geral

Acessando o Facebook, me deparei com uma notícia com alguns compartilhamentos, e algumas reações chocadas: “Revista francesa resume o Brasil em todos os sentidos“.  Pelo que pareceu, os franceses deram uma baixada na nossa moral, mesmo que ela já não seja lá essas coisas, com tópicos do tipo “o brasileiro liga mais pra futebol do que política”,  “O Brasil precisa importar médicos de Cuba, já que não tem competência para formar médicos no próprio país”,  “A Presidente Brasileira parece estar alienada da realidade”, dentre outros.

Dei uma passada rápida, mas não tive paciência para ler tudo. Por não suportar ver as falhas do meu país descritas? Por não me conformar que estrangeiros possam fazer esses comentários? Por meu coração patriota não aguentar? Não, porque tudo isso não me é nenhuma novidade.  Sinceramente, não entendi as reações chocadas sobre a notícia. Os franceses só perceberam e pararam para escrever uma coisa óbvia – que não parece ser tão óbvia assim para os próprios brasileiros pelas reações impressionadas. Convivemos com os problemas diariamente e quando expostos a nós com ironia e crítica por meio de um texto, ficamos chocados. Será que isso acontece pelo tanto que estamos acostumados a fingir que não estamos vendo a realidade? Acostumados aos problemas?

Não é por ter nascido aqui e vivido aqui toda minha vida que vou me deixar levar por sentimentalismos baratos do tipo “goste do país em que você está”, “ame o seu lar”, “tenha devoção pelo verde amarelo”, e perder meu senso crítico.

O fato é que concordo com os pontos exibidos nessa revista francesa. Não preciso nem ler a matéria inteira para isso. O Brasil merece ser criticado.

“Poxa, há muitas pessoas e coisas legais aqui que não mereceriam ser criticadas”. Pois é, mas infelizmente, os problemas aparecem muito mais que isso, e qual a solução? Resolvê-los, e não “amar o seu país”.

Porém, quando começo a pensar em resolver os problemas daqui, parece que me perco em um nó sem fim.

Ao mesmo tempo em que há pessoas que moram em favelas, mas tem um smartphone, há as que moram em mansões e estão mais preocupadas com suas férias de verão e seu carro novo, que  será blindado de todo o jeito, já que o roubo é sempre uma possibilidade.

Aí a favela virou um lugar legal de se morar, que tem povo e cultura próprios, de forma defendida pelos ativistas contra o preconceito, porém não seria melhor que as pessoas pudessem sair das favelas?

Aí de repente, o povo começa a manifestar sua insatisfação, um movimento que poderia até ser interessante. Porém no meio disso aparecem pessoas quebrando orelhões e agências bancárias, e etc, e aí o problema de tudo vira a Copa.

E o governo se mantém totalmente alheio, ao povo, ao transporte público, ao ensino, à saúde, poque quem ocupa o topo da pirâmide monetária não precisa se preocupar com isso. Se os políticos têm todas as suas necessidades supridas, então pra quê se preocupar? Realmente, é muito mais fácil agir assim, e permitido. E quem irá tirar o governo dessa posição confortável?

Enquanto isso, os intelectuais fazem suas próprias manifestações, citando teóricos em seus protestos, em uma mini guerrinha intelectualoide entre “esquerda” e “direita”.

Enquanto isso, mendigos nas ruas estendem suas mãos, falam sozinhos, cheiram mal, e exibem seus filhos para os transeuntes. Ao mesmo tempo funcionários saem de seu serviço de 8 horas na frente de um computador, em cima de seus saltos e dentro de seus ternos, pensando em aguentar mais xis dias de trabalho para sua próxima viagem à Disney.

Faço minhas as palavras de Caetano.

Notícia em: http://hamiltonxavier.blogspot.com.br/2014/02/revista-francesa-resume-o-brasil-em.html

Vida Vitrine

Há um tempo atrás, li um artigo que comentava sobre a juventude atual urbana, ocidental, classe média, estar constantemente deprimida. O motivo seriam aspirações altas demais, por causa de uma realidade com “tudo pronto”, em que as aspirações reais e concretas – ter uma carreira, ganhar dinheiro, se manter – ficaram pra escanteio,  porque foram incorporadas pela geração anterior, os pais e mães desses jovens atuais.  Ao invés do contentamento com o concreto, fica sempre o vazio de um abstrato que nunca acontece – trabalhar é chato, o emprego não está bom, não me encontro nos estudos, etc.

Adicionado a isso vem a internet e o uso das redes sociais, em que esses jovens querem transmitir uma ideia de si mesmos que corresponda a essas aspirações impossíveis e distantes do que é real. Aí que todo mundo parece legal, fazendo coisas legais, sempre no badalo, com amigos todo dia e companhia toda hora. E aí que a grama do outro parece sempre mais verde, e vem o tal descontentamento.

O Facebook virou um vício moderno – você pode fazer dele seu jornal pessoal, em que você é o editor, redator e jornalista. Seu público são seus amigos que obrigatoriamente vão ver aquilo que foi publicado, pois o foco é o que está sendo divulgado pelos outros.

Principalmente, a esperteza da coisa é que é multifuncional. Se não gostar muito de compartilhar seus pensamentos, você pode usar os joguinhos, ou conversar com seus amigos, ou entrar em “grupos” que tenham informações úteis para você. Ou seja, o negócio faz tudo.  Concentrou várias funções ao mesmo tempo, e atende às principais necessidades do mundo em rede, por isso,  a atual dificuldade em se livrar dele, ou substituí-lo. Sem utilizá-lo você… você…. vira um homem das cavernas? Bom, conheço (ainda!) pessoas que não tem facebook e vivem normalmente. Imagino que percam oportunidades que essa conexão múltipla e multifacetada pode trazer. Mas, ainda sobrevivem. E vivem normalmente. E bem, por sinal.

Pensando na vida pré facebook e pós facebook…. Parece que hoje criou-se a necessidade de divulgar. Você divulga a mídia que quiser, texto, vídeo, imagem, criação própria ou alheia, e nada mais é segredo. A graça é publicar. E essa graça só se completa com a reação do público – o botão curtir. Isso tem seu lado interessante, pois uma ferramenta que permite compartilhar realmente fazia falta na era pré facebook – as boas ideias, a comunicação, a velocidade da informação, tudo agora gira e pode ser exposto – a exposição às vezes é interessante e saudável.

Porém, parece que a vida com o facebook torna-se uma vida de exposição, ou “vida vitrine”. Cada coisa legal que alguém pode estar fazendo em um canto xis do universo precisa ser fotografada, divulgada, comentada. E isso se junta com a tal geração infeliz, e vira algo meio doente/ ridículo.  Aquela viagem que você fez, aquela festa em que foi com seus amigos, a roupa nova que você está usando, seu reflexo do espelho do banheiro, precisam ter uma foto publicada no face. 

As pessoas não conseguem mais viver suas vidas sem pensar na possibilidade de exposição. Cada coisa interessante que vivem parece estar carimbada com o logo do facebook.

E pior: algumas pessoas usam essa ferramenta como um “book” pessoal. A pessoa divulga a própria cara nos mais diferentes ângulos, gêneros, números e graus, e faz isso só em função de ter curtidas, ou comentários. Talvez tenha-se criado uma autoestima dependente de exposição e comentários, ou pior, aprovação social obsessiva – vai me dizer que tirar uma foto da própria cara no espelho do banheiro e divulgar dizendo “bom dia” não é obsessivo???

Algo que antes provocaria reações do tipo: que vergonha, só mostro essa foto pra minha mãe e a minha vó, agora tornou-se normal.

Jogo dos 7 erros para achar uma péssima publicidade

ltaqIndia das Oropa

Eu vejo 3 ERROS nessa foto que mostram o que é uma publicidade ruim:

1. Tentativa totalmente fail de contextualizar a imagem com a marca, e a Amazônia. Desde quando as pessoas da Amazônia são loiras de olhos azuis? Só se forem os Europeus que estão lá catando guaraná pra exportar. O mesmo guaraná que está no cabelo da mulher: tentativa de regionalizar o “Amazon” pelo guaraná, mas a total desvalorização da fisionomia de verdade dos habitantes. As pessoas da Amazônia usam uma coroinha de Guaraná?

2. Original: Não vi nada de original na imagem. Talvez nos sabores da bebida, até que sim, porque são diferentes (coco, guaraná, açaí). O que poderia ser legal e algo que se liga à região Amazônica – já que original remente a “origem” – torna-se totalmente nada a ver com a imagem veiculada – sem traços típicos –  e nada a ver com o slogan – não ressalta os sabores, mas um “original” que de “origem” não tem nada… e algum “selvagem”.

3. Selvagem: bebida selvagem? Porque os sabores remetem à “selva” Amazônica, ok, mas essa foto não tem nada de Amazônia. O foco é uma mulher com traços europeus, com cara de “ai se eu te pego”. Então o “selvagem” acaba associando-se à imagem da mulher e sua expressão, muito mais do que remetendo à Amazônia..

Tá, selvagem é a mulher, a Amazônia ou a bebida? É pra pessoa fazer um mix dos três, e beber a bebida como se estivesse bebendo a mulher? Apelação para a sensualidade feminina ao invés da valorização dos sabores da bebida, que é o que a pessoa vai beber de fato. A bebida é tão ruim que a pessoa tem que pensar que está comprando uma modelo?

Pior, a Amazônia é remetida aqui como: “europeia bonita” e “selvagem”, não no sentido de “selva” nem “floresta” nenhuma, mas no sentido de “lugar de mulheres selvagens ai se eu te pego”. E a mulher como “bebida”.

Esse é só um exemplo de várias de nossas publicidades fail. Me pergunto onde os publicitários estão se formando. Ou, a mídia acha que ninguém está pensando……