A indústria vicia seu paladar

Ou, por que você não gosta de chuchu

foto de chuchus

Recebi a recomendação médica de cortar o glúten da minha alimentação, porque não tive bons resultados em exames do fígado e tireoide. Essa advertência já me havia sido feita antes, por uma médica da linha da medicina chinesa, que fez esse diagnóstico sem nenhum exame, só examinando meus olhos e língua. Ainda por cima, a recomendação foi cortar a tríade completa: glúten, lactose e açúcar. Para mim isso seria viver só de ar. Não levei muito a sério. Agora, o alerta voltou, um pouco mais drástico.

Eu achei que nunca viveria sem pãozinho, pizza e macarrão, não gosto de ser radical com nada e adoro comer. Mas, estou a algumas semanas com glúten quase zero. Apesar de pouco tempo, já vi alguns resultados alarmantes.

Meu interesse nisso NÃO foi estético. Mas a redução da gordura abdominal é impressionante, em pouquíssimo tempo.

Mas o mais chocante aconteceu quando gostei de comer chuchu. Aí saiu fumacinha da minha cabeça, fiz umas conexões e tirei umas conclusões.

Chocolate é muito mais gostoso do que chuchu. A indústria mistura muitos sabores diferentes no mesmo alimento. A chave são os aromas: elementos químicos e sintéticos. Eles até se baseiam em alimentos naturais, mas não são, claro: são potencializados e alterados. Ou seja, quando você chupa uma bala de morango, ela é tudo, menos morango — ela pode ser até esse insetinho aquiAssim, a indústria oferece uma EXPERIÊNCIA alimentar. E NÃO um alimento.

cachimbo

Isso não é um cachimbo (René Magritte)

Acostumamos com o gosto maravilhoso e sintético-sinestésico dos alimentos industrializadosE perdemos a sensibilidade para gostos naturais e não tão apetitosos, porque não foram potencializados. Aconteceu exatamente isso: há algumas semanas com essa alimentação mais atenta e natural, desacostumei com a super-experiência do gosto industrial e simplesmente o chuchu não me pareceu tão ruim.

Estou querendo dizer que a indústria VICIA nosso paladar.

É só abrir o pacote de salgadinho e comer, não precisa cozinhar, é gostoso e não suja louça. Chuchu não. E assim, a natureza vai sendo atropelada — fora os resíduos sólidos! — em troca de interesses egocêntricos, prejudiciais à saúde e ao meio ambiente, e da nossa necessidade cada vez mais compulsiva de prazer instantâneo, reduzido a poucos minutos.

É o modo de vida, a industrialização, o capitalismo, a urbanização, não sei muito bem o que concluir a não ser ir morar em uma comunidade autossustentável, o que não farei agora.

Só sei que por causa dessa mudança alimentar que eu tive que fazer, diminuí bem os industrializados e estou preparando meus próprios alimentos mais vezes. Sim, gasta tempo, que hoje é cada vez mais escasso — um dos principais motivos de querermos tudo pronto. Mas, justamente, quebra um pouco esse imediatismo que vivemos atualmente, faz entender que tudo tem um processo e que nós somos parte dele.

Eu consigo ficar muito feliz quando cozinho algo e fica bom, quando eu mesma fiz o que estou comendo, e quando eu confio no que estou comendo porque eu que fiz, mesmo que seja só lavar uma alface (tô brincando vai, já fiz mais do que isso). Dá trabalho, mas é muito importante. Quebra paradigmas, quebra hábitos, é reflexão, é conexão, lidar com os alimentos crus é sentir a natureza. É retomar nossas origens, quando a produção era pouca e era o que precisava, e não um exagero em larga escala desenfreado. Não estou mudando o mundo quando cozinho, ou quando fico atenta à minha alimentação, mas é mudar o padrão, pelo menos um pouco.

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Uma sociedade armada é solução?

give books not guns - o estatuto sobre porte de armasdesarmamento ou não da população reapareceu como discurso político e pauta de muitos candidatos. O projeto de lei, em andamento desde 2012, defende o uso de armas por qualquer pessoa acima de 21 anos, independente da ocupação — incluindo “deputados, senadores e agentes de segurança socioeducativos” (!). Esse é um tema que creio tão perigoso e delicado que preciso escrever e arriscarei entrar na polêmica.

“Cuidado com estranhos na rua! Melhor não retrucar! A gente nunca sabe com quem está lidando! Vai que tem uma arma?”. Tenho certeza de que muitos de nós já ouviram isso. Ou seja, temos medo do outro, medo da rua, medo a céu aberto. No simples cotidiano muitas vezes já deixamos de colocar nossos direitos e opiniões por medo — reclamar com quem furou a fila, com quem está ouvindo som alto, com quem trava a passagem da esquerda, com quem te passa uma cantada — “vai que tem uma arma”? Com um armamento legalizado, o que antes era uma hipótese, e já alimentava uma atmosfera de medo, passa a ser possível e mais próximo da realidade. Ou seja, mais um item para inflar nosso medo compartilhado.

Muitos podem dizer que a lei é ineficaz, porque muitas pessoas já fazem o porte ilegal. Mas pelo menos, ainda há o controle da lei. É difícil de acreditar que se as armas de fogo forem legalizadas só serão usadas em situações extremas. Armas podem criar potenciais agressores — qualquer um pode tirar a vida de qualquer outro por qualquer motivo banal. E assim, aumenta-se o ibope de nossos noticiários sensacionalistas de tragédia. Violência NÃO É empoderamento. Isso é uma crença distorcida de uma sociedade que se sente oprimida, não enxerga soluções, e retroalimenta a violência e o medo.

Eu acredito que em uma sociedade não deveria SEQUER HAVER ARMA NENHUMA. Armas só deveriam existir no esporte olímpico de tiro ao alvo. A evolução de uma sociedade se faz com menos armas, retirando armas de circulação, e não estimulando seu uso. MENOS armas, MAIS educação, saúde, qualidade de vida, IDH.

Além de tudo isso, pregando a legalização de armas, o governo TIRA sua própria responsabilidade de promover todos esses outros aspectos que constroem uma sociedade digna — para que ninguém sequer precise de armas. “E até a sociedade evoluir assim, o que acontece”? Não temos a sociedade perfeita, mas isso também é jogar a segurança pública que ainda precisamos na mão do cidadão — literalmente! Se a lei atual sobre porte de armas não é respeitada, mais esforços deveriam ser investidos na sua fiscalização e eficiência.

Sei que muitas pessoas inocentes são ameaçadas por armas, traumatizadas, oprimidas, independentemente da cor, etnia e classe social. O sentimento em situações como essas deve ser tão forte a ponto de uma arma parecer sim uma defesa. Não culpo o cidadão por esse raciocínio. Porém, a nível de governo, candidatos políticos que deveriam ser RESPONSÁVEIS pelo povo, trazerem esse argumento da legalização das armas como uma solução fácil e rápida, ao invés de analisarem a questão com muito cuidado, é VERGONHOSO.

Em resumo, acredito que se as armas forem legalizadas, quem mais uma vez se dá mal na história é o cidadão, cidadã, trabalhador, trabalhadora, que não tem nenhuma vontade de portar uma arma, nem pensa na possibilidade de ameaçar ninguém com uma. Sou eu, você, que ouvimos o “vai que tem uma arma” de nossas mães, pais, avós, amigos, etc.

Sociedade ansiosa

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imagem: Steve Cutts

Dizem que a ansiedade é o mal do nosso tempo e muitas pessoas sofrem cada vez mais com transtornos de ansiedade.  O que era para ser uma manifestação natural do corpo, de acionar o mecanismo de luta e fuga para situações de risco, acaba se intensificando no nosso dia a dia, atingindo níveis fora do controle e desesperadores para quem os sente. A ansiedade acaba virando até uma disfunção e um impeditivo de qualidade de vida, e cada vez mais são buscados e oferecidos tratamentos. Os sintomas são amenizados e a pessoa consegue continuar vivendo, o que é muito bom e um avanço da ciência, cada vez mais oferecendo opções modernas de tratamento. Mas a crise continua inerente.

Vivemos em uma sociedade ansiosa. COMPRE, ADQUIRA, JÁ, AGORA, NÃO PERCA A CHANCE, CONQUISTE, PRAZO, OPORTUNIDADE ÚNICA, GARANTIA DE SUCESSO, PROMOÇÃO, PARA ONTEM… são palavras tão comuns que não nos damos conta de sua agressividade, e que contribuem para uma ansiedade socialmente cultivada.

E este é um exemplo explícito, mas há muitas formas veladas. O incrível acesso à informação que temos hoje é nosso grande triunfo, mas por outro lado, um grande problema. Porque tudo vira uma ânsia! Ânsia de conseguir, de mostrar, de compartilhar, de ter, de fazer. Gera-se uma ânsia para se saber de tudo e mostrar tudo. Parece que se faz muito e se sente pouco. Somos estimulados a agir mais do que a sentir, mais à ação do que a ter o próprio tempo, ou sentir as experiências. Muito se sabe, mas pouco se entende. Somos estimulados mais ao volume, do que ao raciocínio ponderado e seletivo sobre informações e coisas.

É uma via de mão dupla porque a sociedade promove esse sentimento, mas nós também o alimentamos – acabamos incentivando sem querer: de repente, estamos mergulhados na ansiedade da sociedade. O mercado de trabalho causa ansiedade. O sucesso profissional causa ansiedade. A mídia causa ansiedade. As redes sociais causam ansiedade. A simples vida do outro causa ansiedade.

Há cobrança da sociedade, mas também nos cobramos, mergulhados nessa realidade tida como única. Aí sucumbimos. Sucumbimos quando a pressão se volta para nós mesmos. Mas podemos desviar a pressão para o exterior, projetando a ansiedade em cima dos outros e criando ambientes ansiosos. E assim, tudo se perpetua. Ou seja, somos vítimas, ou perpetuadores. Será que conseguiremos ser agentes da mudança?

Talvez (ou com certeza) por isso técnicas de meditação e autocontrole estejam cada vez mais comuns, como yoga, mindfullness, terapias… resta saber até que ponto cada pessoa contagiada com tranquilidade conseguirá resistir a uma sociedade ansiosa, ou mudá-la… e até que ponto essas técnicas conseguirão apresentar saídas, ou se tornarão a realidade.

 

“Ser para casar” e “sexo no primeiro encontro” – tudo a ver ou nada a ver?

Esses dias vi no Facebook o compartilhamento de um artigo, que saiu no site “Papo de Homem”, sobre o preconceito que ainda existe na sociedade para mulheres que topariam sexo no 1º encontro. O texto tentou desmistificar esse preconceito para o público leitor masculinho.

A pessoa que conheço compartilhou o texto no Facebook mais por indignação sobre esse tipo de preconceito ainda existir, considerando o direito de todos à sexualidade como algo que já devia ser óbvio.

O artigo é interessante por combater um preconceito de gênero. Mas acho que acabou saindo de um preconceito e caindo em outro. O autor valoriza as mulheres que topariam esse tipo de experiência como “aventureiras” ou “autênticas”, combativas ao que a sociedade espera delas, dizendo que estas sim, seriam “pra casar”. Tá bom que “ser pra casar” não é muito elogio pra ninguém, mas nisso, julgamentos acabaram ficando implícitos sobre as mulheres que não querem transar de primeira, como se estas fossem as “recatadas”, ou “não aventureiras”.

Enquanto há pessoas que conseguem separar “sexo” de “sentimento”, ou seja, buscar uma relação apenas para suprir desejos carnais momentâneos, não acho que seja “errado” ainda existirem também outras pessoas que considerem o sexo algo íntimo e importante demais para ser compartilhado com qualquer pessoa, ou de 1ª.

Autenticidade, ou outra imposição disfarçada? – ser “aventureiro” ou “descolado”. A igualdade de respeito entre gêneros é uma coisa, mas a questão de como o sexo está sendo tratado é outra. Ter sexo quando se quer, se assemelha para mim como uma pizza delivery, ou um disque necessidade, representações de nossa sociedade consumista e das emoções breves. Positivo, sim, negativo: nada mais perdura, ou é conquistado, batalhado, cultivado, mantido. As relações estão sendo atropeladas pelo desejo breve.

Não quero parecer uma religiosa conservadora falando. Na verdade, acredito que nada pode ser uma regra, pois cada situação é inédita. Por exemplo, sexo no 1º encontro deve depender de muitos fatores, não só “quebrar preconceitos” ou “ser aventureiro”, mas do desejo que se sentiu por aquela pessoa, do risco a se correr, do interesse pelo outro, do significado que aquilo terá depois (se terá algum)…. ou seja: é preciso estar ligado consigo mesmo em cada situação, independente de uma regra ou imposição pré-estabelecida, e fazer aquilo que se almeja para si próprio! E isso vale para homens e mulheres, igualmente. Sem esquecer que há um “outro” envolvido, com toda sua individualidade também…

Não são todas as pessoas que são desencanadas e acham que sexo é fácil e consegue-se rápido, alguns ainda são tímidos, ou mais envergonhados, ou mais fechados, mais caseiros, mais sonhadores, sei lá! Assim: a mulher não é “puta” se ela quer sexo no 1º encontro, e ponto final. Mas não é por isso que todo mundo precisa sair transando por aí. Por isso acho que são dois assuntos diferentes, apesar de se misturarem.

Portanto… A moral da história não deveria ser que cada um deve agir do jeito que mais se sinta confortável, sem precisar se sentir envergonhado, ou julgado por isso?

Artigo:

http://papodehomem.com.br/mulher-que-da-na-primeira-noite-essa-e-pra-casar/

A escolha profissional, a universidade, o mercado e o Brasil: alternativa ‘a’ ou ‘b’.

Lembro há alguns anos atrás quando eu virava as páginas do Manual do Candidato para prestar o vestibular e me deparei com a definição do curso de Letras. E assim, fiz minha escolha, não muito segura, não muito certa, nem motivada. Mas sentia que precisava escolher alguma coisa.

Esses tantos ingressantes como eu podem ter tido as mais diversas motivações: a indecisão, a pressão, a verdadeira vocação e vontade, e alguns outros, “dar aula jamais” (fazer só o bacharelado e não a licenciatura, parte que habilita a lecionar). O ensino não é a opção de muitos que escolhem Letras, apesar do senso comum imaginar que esse seja o único caminho.

A universidade questiona o senso comum porque é um conhecimento pronto e fácil que nem sempre explica a realidade dos fatos.

Mas nesse momento parece-me que o senso comum não é um adversário tão fácil assim de combater quanto parecia. Na hora de arrumar um emprego, Letras = dar aula. E então, no momento encontro-me cursando a licenciatura, apesar de nunca ter sonhado em ser professora.

Não tenho uma visão preconceituosa e estereotipada dessa profissão, do tipo: “que horror, você quer ser professor?” – eu já ouvi isso. É algo muito digno, uma missão, que interfere no mundo e na realidade! Porém, é fato que não é reconhecida como deveria no Brasil. Mas onde há problemas é preciso buscar a solução e não conformar-se, não? Por isso, porque não ser professor?

Apesar da motivação revolucionária que a luta pela educação inspira, ainda não consigo dizer que é minha escolha.

A universidade não considera crenças pessoais como explicação para nada, porque o subjetivo não é científico.

Mas ainda acredito no “dom” da vocação, que ninguém ensina. E não sinto ter exatamente o dom para a educação. Sempre quis ser das artes visuais, e não fui.

Se eu tivesse que aconselhar alguém em fase de escolha da profissão, diria: escolha o que você quiser, e pronto. Não fui para as artes por ouvir que era uma área difícil. Optei por Letras por pensar que poderia encontrar um campo mais amplo, principalmente com revisão e tradução. E está tão difícil arranjar trabalho nisso quanto talvez fosse em artes visuais.

Eu não aguento mais mandar currículo para todo canto – já escrevi o que já fiz, o que sei fazer, o que posso fazer, e o que poderia fazer, inúmeras vezes. E nada.

A universidade se baseia nos fatos e as crenças subjetivas não explicam ciência nenhuma.

Mas ainda tenho mais uma sobre isso: acho que quanto mais repetimos alguma afirmação negativa, mais ela é reforçada e pode acontecer. Então pensei em parar de dizer que está difícil encontrar trabalho. E cá estou eu aqui escrevendo sobre isso.

Resta-me continuar em vários grupos de anúncio de vagas no Facebook, vasculhando a internet e mandando currículos.

Até que em um desses grupos do Facebook apareceu a questão: “o problema sou eu ou está difícil encontrar emprego?”, e teve umas 400 curtidas e vários comentários reclamando sobre isso.

Nos momentos “muro das lamentações” inúmeras injustiças aparecem, que podem (ou não) ter sua parcela de verdade. Eu reclamo do tanto de experiência requisitada nas vagas ultimamente. E mesmo em vagas que até acho ter alguma chance não recebo nem ligação por engano. Os concorrentes estão tão experientes e com perfis tão estonteantes? Sinceramente não me lembro de ter convivido com pessoas tão maravilhosas assim não e até meio folgadas (julgando os coleguinhas).

Também acabo culpando o preconceito à minha área, que Letras está sucateado, ninguém dá valor, e todo mundo só liga pra Engenharia. Até que encontrei um engenheiro que também disse que está difícil arranjar emprego.

Então, pode ser que esteja difícil mesmo.

Porém, aprendi nessas aulas da Licenciatura, que estamos vivendo um momento de “bônus demográfico”, ou seja, maior parte da população em idade ativa e pronta para oferecer sua força de trabalho.

Assinale a alternativa que você considera provável sobre o que vai acontecer frente a esse cenário demográfico brasileiro:

a) Momento em que muitos jovens em idade de ingressar no mercado geram força de trabalho, sendo um prato cheio para o desenvolvimento econômico do Brasil. Esses jovens inserem-se em atividades que não só estimulam o crescimento econômico do país, mas também o social, como políticas públicas, serviços e 3º setor, trazendo enriquecimento e melhorias gerais.

b) Bem nesse momento entramos em crise. Crise financeira por má administração pública, déficit comercial, PIB negativo, corrupção. Alta do dólar, recessão do mercado. E todos esses jovens que poderiam estar gerando crescimento estão aglomerados sem encontrar lugar no mercado de trabalho.

O Brasil, o futebol e o ano da Copa

Minha vó um dia me disse que 7 era o número do mentiroso. Se alguma pessoa dissesse, por exemplo, “eu vi 7 pássaros verdes voando”, era mentira. Desta forma, se alguém disser que o Brasil perdeu de 7×1 na Copa de 2014 jogando em casa, pode-se considerar que é mentira!

O futebol sempre teve forte popularidade no Brasil, e as Copas têm repercussão nacional. Cultural, um símbolo, uma paixão, o que explica esse fenômeno? Comemora-se: “Pelo menos nisso o Brasil é bom!”. Até que essa comemoração começou a incomodar. Passou-se a chamar o futebol de “ópio do povo”, como uma droga que impediria as massas de perceber os reais problemas sociais, criando uma satisfação ilusória. E assim,  irritados por sermos taxados de bobos e iludidos, pensamos: “por quê não podemos ser bons em educação, saúde, qualidade de vida, igualdade social?”, combatendo até mesmo o futebol.

Os protestos pré-copa são um exemplo dessa situação: reclamou-se muito pelo dinheiro investido “para inglês ver”, ao invés de servir para o bem estar social. “Não somos mais iludidos pelo ópio do futebol!”, foi como se estivessem clamando. Juntou-se a isso a falta de confiança na capacidade de suportar um evento de tal porte,  pela inconsistência do governo e a falta de moral e ética que ele transmite aos cidadãos.

E mesmo assim, o evento teve início, e continuaram os protestos. Que em nada mais adiantariam, visto que o dinheiro reclamado  já havia sido gasto. Mas o sentimento de impotência e incapacidade do brasileiro frente aos problemas de seu país, às vezes culmina em uma fúria desmedida. Que também não resolve muita coisa.

Mas no final correu tudo aparentemente bem. Quer dizer, não tão mal quanto o esperado. Notícias ruins foram ocultas? Sendo ou não, o futebol envolveu a todos, cada vez mais.  A repercussão positiva se espalhou. Apesar dos pesares, o sentimento de unir vários países em um mesmo local, a expectativa da vitória, e várias pessoas de lugares diferentes se conectarem pelo mesmo ideal transmitem uma energia incrível. O desempenho favorável do time brasileiro e sua chegada às semifinais, inevitavelmente, faz o povo alegre – até os que fingem não ligar pra isso.

De repente, o time toma a maior derrota da história do futebol brasileiro.  De forma inexplicável. O que aconteceu? Ninguém consegue responder. Se estivesse jogando tão mal, não teria se saído bem desde o começo? Com a falta de dois jogadores essenciais, tudo desmoronou? E o técnico? E os reservas? E a equipe?

Mal estar nacional. Sentimento de humilhação. Alguns jogadores choravam desesperadamente após a partida, demonstrando a vergonha que aquilo causou. Culpas e culpados por todo o lado. O zagueiro David Luiz disse, entre lágrimas, que “só queria fazer seu povo feliz. Esse povo que já sofre tanto, para pelo menos ficarem felizes com o futebol. Mas não conseguimos. Desculpe!”

Através desse discurso, parece que o futebol assume significados além da própria partida, como a felicidade de uma nação.  Talvez, algo pesado demais para apenas um esporte. É pressão demais alguém colocar esse peso sobre os ombros. Seria porque a vitória no futebol acaba sanando um sentimento de inferioridade nacional? Talvez não seria esse, de fato, um ópio do povo? Pelos problemas políticos e sociais que precisamos engolir, mas nos envergonham e causam um tipo de culpa reprimida, ou orgulho impossível.

Pelo menos o futebol anestesia a nossa impotência, pois é uma das poucas vitórias concretas que acontecem de verdade?

Os políticos deveriam carregar a responsabilidade de um país nos ombros, e não seus jogadores de futebol. Depositemos no futebol as esperanças apenas do futebol, e pronto, não extrapolando o que ele, como um esporte, pode oferecer. O que já é em si, suficiente, e particularmente, muito legal.

Povo legal, mas uma bagunça geral

Acessando o Facebook, me deparei com uma notícia com alguns compartilhamentos, e algumas reações chocadas: “Revista francesa resume o Brasil em todos os sentidos“.  Pelo que pareceu, os franceses deram uma baixada na nossa moral, mesmo que ela já não seja lá essas coisas, com tópicos do tipo “o brasileiro liga mais pra futebol do que política”,  “O Brasil precisa importar médicos de Cuba, já que não tem competência para formar médicos no próprio país”,  “A Presidente Brasileira parece estar alienada da realidade”, dentre outros.

Dei uma passada rápida, mas não tive paciência para ler tudo. Por não suportar ver as falhas do meu país descritas? Por não me conformar que estrangeiros possam fazer esses comentários? Por meu coração patriota não aguentar? Não, porque tudo isso não me é nenhuma novidade.  Sinceramente, não entendi as reações chocadas sobre a notícia. Os franceses só perceberam e pararam para escrever uma coisa óbvia – que não parece ser tão óbvia assim para os próprios brasileiros pelas reações impressionadas. Convivemos com os problemas diariamente e quando expostos a nós com ironia e crítica por meio de um texto, ficamos chocados. Será que isso acontece pelo tanto que estamos acostumados a fingir que não estamos vendo a realidade? Acostumados aos problemas?

Não é por ter nascido aqui e vivido aqui toda minha vida que vou me deixar levar por sentimentalismos baratos do tipo “goste do país em que você está”, “ame o seu lar”, “tenha devoção pelo verde amarelo”, e perder meu senso crítico.

O fato é que concordo com os pontos exibidos nessa revista francesa. Não preciso nem ler a matéria inteira para isso. O Brasil merece ser criticado.

“Poxa, há muitas pessoas e coisas legais aqui que não mereceriam ser criticadas”. Pois é, mas infelizmente, os problemas aparecem muito mais que isso, e qual a solução? Resolvê-los, e não “amar o seu país”.

Porém, quando começo a pensar em resolver os problemas daqui, parece que me perco em um nó sem fim.

Ao mesmo tempo em que há pessoas que moram em favelas, mas tem um smartphone, há as que moram em mansões e estão mais preocupadas com suas férias de verão e seu carro novo, que  será blindado de todo o jeito, já que o roubo é sempre uma possibilidade.

Aí a favela virou um lugar legal de se morar, que tem povo e cultura próprios, de forma defendida pelos ativistas contra o preconceito, porém não seria melhor que as pessoas pudessem sair das favelas?

Aí de repente, o povo começa a manifestar sua insatisfação, um movimento que poderia até ser interessante. Porém no meio disso aparecem pessoas quebrando orelhões e agências bancárias, e etc, e aí o problema de tudo vira a Copa.

E o governo se mantém totalmente alheio, ao povo, ao transporte público, ao ensino, à saúde, poque quem ocupa o topo da pirâmide monetária não precisa se preocupar com isso. Se os políticos têm todas as suas necessidades supridas, então pra quê se preocupar? Realmente, é muito mais fácil agir assim, e permitido. E quem irá tirar o governo dessa posição confortável?

Enquanto isso, os intelectuais fazem suas próprias manifestações, citando teóricos em seus protestos, em uma mini guerrinha intelectualoide entre “esquerda” e “direita”.

Enquanto isso, mendigos nas ruas estendem suas mãos, falam sozinhos, cheiram mal, e exibem seus filhos para os transeuntes. Ao mesmo tempo funcionários saem de seu serviço de 8 horas na frente de um computador, em cima de seus saltos e dentro de seus ternos, pensando em aguentar mais xis dias de trabalho para sua próxima viagem à Disney.

Faço minhas as palavras de Caetano.

Notícia em: http://hamiltonxavier.blogspot.com.br/2014/02/revista-francesa-resume-o-brasil-em.html