Sociedade ansiosa

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Dizem que a ansiedade é o mal do nosso tempo e muitas pessoas sofrem cada vez mais com transtornos de ansiedade.  O que era para ser uma manifestação natural do corpo, de acionar o mecanismo de luta e fuga para situações de risco, acaba se intensificando no nosso dia-a-dia, atingindo níveis fora do controle e desesperadores para quem os sente. A ansiedade acaba virando até uma disfunção e um impeditivo de qualidade de vida, e cada vez mais são buscados e oferecidos tratamentos. Os sintomas do ‘doente’ são amenizados e a pessoa consegue continuar vivendo, o que é muito bom e um avanço da ciência, de cada vez mais oferecer opções modernas de tratamento. Mas a crise continua congênita.

Vivemos em uma sociedade ansiosa. COMPRE, ADQUIRA, JÁ, AGORA, NÃO PERCA A CHANCE, CONQUISTE, PRAZO, OPORTUNIDADE ÚNICA, GARANTIA DE SUCESSO, PROMOÇÃO, PARA ONTEM… são palavras tão comuns que não nos damos conta de sua agressividade.  Em pequenas manifestações corriqueiras, como nesse simples exemplo, já é possível perceber uma parcela da ansiedade socialmente cultivada.

E este é um exemplo explícito, mas há muitas formas veladas. O incrível acesso à informação que temos hoje é nosso grande triunfo, mas por outro lado, um grande problema. É uma via de mão dupla porque a sociedade promove esse sentimento, mas nós também o alimentamos – acabamos incentivando sem querer: de repente, estamos mergulhados na ansiedade da sociedade. Recebemos a informação e também a alimentamos. Recebemos a ansiedade e também a alimentamos.

O mercado de trabalho causa (totalmente) ansiedade. O sucesso profissional causa ansiedade. A mídia causa ansiedade. Ganhar dinheiro causa ansiedade. As redes sociais causam ansiedade. A simples vida do outro causa ansiedade. Porque tudo vira uma ânsia! Ânsia de conseguir, de mostrar, de compartilhar, de ter, de fazer. Gera-se uma ânsia para se saber de tudo e mostrar tudo. Às vezes passa-se a impressão de se fazer muito e sentir pouco. Somos estimulados a agir mais do que a sentir, mais à ação do que a ter o próprio tempo, ou sentir as experiências.

Há cobrança da sociedade, mas também nos cobramos, mergulhados nessa realidade tida como única. Aí sucumbimos. Sucumbimos quando a pressão se volta para nós mesmos. Mas podemos desviar a pressão para o exterior, projetando a ansiedade em cima dos outros e criando ambientes ansiosos. E assim, tudo se perpetua. Ou seja, somos vítimas, ou perpetuadores. Será que conseguiremos ser agentes da mudança?

Não sei a solução para esse problema. Talvez (ou com certeza) por isso técnicas de meditação e autocontrole estejam cada vez mais comuns, como yoga, mindfullness, terapias… resta saber até que ponto cada pessoa contagiada com tranquilidade conseguirá resistir a uma sociedade ansiosa, ou mudá-la… e até que ponto essas técnicas conseguirão apresentar saídas, ou se tornarem a realidade.

 

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“Ser para casar” e “sexo no primeiro encontro” – tudo a ver ou nada a ver?

Esses dias vi no Facebook o compartilhamento de um artigo, que saiu no site “Papo de Homem”, sobre o preconceito que ainda existe na sociedade para mulheres que topariam sexo no 1º encontro. O texto tentou desmistificar esse preconceito para o público leitor masculinho.

A pessoa que conheço compartilhou o texto no Facebook mais por indignação sobre esse tipo de preconceito ainda existir, considerando o direito de todos à sexualidade como algo que já devia ser óbvio.

O artigo é interessante por combater um preconceito de gênero. Mas acho que acabou saindo de um preconceito e caindo em outro. O autor valoriza as mulheres que topariam esse tipo de experiência como “aventureiras” ou “autênticas”, combativas ao que a sociedade espera delas, dizendo que estas sim, seriam “pra casar”. Tá bom que “ser pra casar” não é muito elogio pra ninguém, mas nisso, julgamentos acabaram ficando implícitos sobre as mulheres que não querem transar de primeira, como se estas fossem as “recatadas”, ou “não aventureiras”.

Enquanto há pessoas que conseguem separar “sexo” de “sentimento”, ou seja, buscar uma relação apenas para suprir desejos carnais momentâneos, não acho que seja “errado” ainda existirem também outras pessoas que considerem o sexo algo íntimo e importante demais para ser compartilhado com qualquer pessoa, ou de 1ª.

Autenticidade, ou outra imposição disfarçada? – ser “aventureiro” ou “descolado”. A igualdade de respeito entre gêneros é uma coisa, mas a questão de como o sexo está sendo tratado é outra. Ter sexo quando se quer, se assemelha para mim como uma pizza delivery, ou um disque necessidade, representações de nossa sociedade consumista e das emoções breves. Positivo, sim, negativo: nada mais perdura, ou é conquistado, batalhado, cultivado, mantido. As relações estão sendo atropeladas pelo desejo breve.

Não quero parecer uma religiosa conservadora falando. Na verdade, acredito que nada pode ser uma regra, pois cada situação é inédita. Por exemplo, sexo no 1º encontro deve depender de muitos fatores, não só “quebrar preconceitos” ou “ser aventureiro”, mas do desejo que se sentiu por aquela pessoa, do risco a se correr, do interesse pelo outro, do significado que aquilo terá depois (se terá algum)…. ou seja: é preciso estar ligado consigo mesmo em cada situação, independente de uma regra ou imposição pré-estabelecida, e fazer aquilo que se almeja para si próprio! E isso vale para homens e mulheres, igualmente. Sem esquecer que há um “outro” envolvido, com toda sua individualidade também…

Não são todas as pessoas que são desencanadas e acham que sexo é fácil e consegue-se rápido, alguns ainda são tímidos, ou mais envergonhados, ou mais fechados, mais caseiros, mais sonhadores, sei lá! Assim: a mulher não é “puta” se ela quer sexo no 1º encontro, e ponto final. Mas não é por isso que todo mundo precisa sair transando por aí. Por isso acho que são dois assuntos diferentes, apesar de se misturarem.

Portanto… A moral da história não deveria ser que cada um deve agir do jeito que mais se sinta confortável, sem precisar se sentir envergonhado, ou julgado por isso?

Artigo:

http://papodehomem.com.br/mulher-que-da-na-primeira-noite-essa-e-pra-casar/

A escolha profissional, a universidade, o mercado e o Brasil: alternativa ‘a’ ou ‘b’.

Lembro há alguns anos atrás quando eu virava as páginas do Manual do Candidato para prestar o vestibular e me deparei com a definição do curso de Letras. E assim, fiz minha escolha, não muito segura, não muito certa, nem motivada. Mas sentia que precisava escolher alguma coisa.

Esses tantos ingressantes como eu podem ter tido as mais diversas motivações: a indecisão, a pressão, a verdadeira vocação e vontade, e alguns outros, “dar aula jamais” (fazer só o bacharelado e não a licenciatura, parte que habilita a lecionar). O ensino não é a opção de muitos que escolhem Letras, apesar do senso comum imaginar que esse seja o único caminho.

A universidade questiona o senso comum porque é um conhecimento pronto e fácil que nem sempre explica a realidade dos fatos.

Mas nesse momento parece-me que o senso comum não é um adversário tão fácil assim de combater quanto parecia. Na hora de arrumar um emprego, Letras = dar aula. E então, no momento encontro-me cursando a licenciatura, apesar de nunca ter sonhado em ser professora.

Não tenho uma visão preconceituosa e estereotipada dessa profissão, do tipo: “que horror, você quer ser professor?” – eu já ouvi isso. É algo muito digno, uma missão, que interfere no mundo e na realidade! Porém, é fato que não é reconhecida como deveria no Brasil. Mas onde há problemas é preciso buscar a solução e não conformar-se, não? Por isso, porque não ser professor?

Apesar da motivação revolucionária que a luta pela educação inspira, ainda não consigo dizer que é minha escolha.

A universidade não considera crenças pessoais como explicação para nada, porque o subjetivo não é científico.

Mas ainda acredito no “dom” da vocação, que ninguém ensina. E não sinto ter exatamente o dom para a educação. Sempre quis ser das artes visuais, e não fui.

Se eu tivesse que aconselhar alguém em fase de escolha da profissão, diria: escolha o que você quiser, e pronto. Não fui para as artes por ouvir que era uma área difícil. Optei por Letras por pensar que poderia encontrar um campo mais amplo, principalmente com revisão e tradução. E está tão difícil arranjar trabalho nisso quanto talvez fosse em artes visuais.

Eu não aguento mais mandar currículo para todo canto – já escrevi o que já fiz, o que sei fazer, o que posso fazer, e o que poderia fazer, inúmeras vezes. E nada.

A universidade se baseia nos fatos e as crenças subjetivas não explicam ciência nenhuma.

Mas ainda tenho mais uma sobre isso: acho que quanto mais repetimos alguma afirmação negativa, mais ela é reforçada e pode acontecer. Então pensei em parar de dizer que está difícil encontrar trabalho. E cá estou eu aqui escrevendo sobre isso.

Resta-me continuar em vários grupos de anúncio de vagas no Facebook, vasculhando a internet e mandando currículos.

Até que em um desses grupos do Facebook apareceu a questão: “o problema sou eu ou está difícil encontrar emprego?”, e teve umas 400 curtidas e vários comentários reclamando sobre isso.

Nos momentos “muro das lamentações” inúmeras injustiças aparecem, que podem (ou não) ter sua parcela de verdade. Eu reclamo do tanto de experiência requisitada nas vagas ultimamente. E mesmo em vagas que até acho ter alguma chance não recebo nem ligação por engano. Os concorrentes estão tão experientes e com perfis tão estonteantes? Sinceramente não me lembro de ter convivido com pessoas tão maravilhosas assim não e até meio folgadas (julgando os coleguinhas).

Também acabo culpando o preconceito à minha área, que Letras está sucateado, ninguém dá valor, e todo mundo só liga pra Engenharia. Até que encontrei um engenheiro que também disse que está difícil arranjar emprego.

Então, pode ser que esteja difícil mesmo.

Porém, aprendi nessas aulas da Licenciatura, que estamos vivendo um momento de “bônus demográfico”, ou seja, maior parte da população em idade ativa e pronta para oferecer sua força de trabalho.

Assinale a alternativa que você considera provável sobre o que vai acontecer frente a esse cenário demográfico brasileiro:

a) Momento em que muitos jovens em idade de ingressar no mercado geram força de trabalho, sendo um prato cheio para o desenvolvimento econômico do Brasil. Esses jovens inserem-se em atividades que não só estimulam o crescimento econômico do país, mas também o social, como políticas públicas, serviços e 3º setor, trazendo enriquecimento e melhorias gerais.

b) Bem nesse momento entramos em crise. Crise financeira por má administração pública, déficit comercial, PIB negativo, corrupção. Alta do dólar, recessão do mercado. E todos esses jovens que poderiam estar gerando crescimento estão aglomerados sem encontrar lugar no mercado de trabalho.

O Brasil, o futebol e o ano da Copa

Minha vó um dia me disse que 7 era o número do mentiroso. Se alguma pessoa dissesse, por exemplo, “eu vi 7 pássaros verdes voando”, era mentira. Desta forma, se alguém disser que o Brasil perdeu de 7×1 na Copa de 2014 jogando em casa, pode-se considerar que é mentira!

O futebol sempre teve forte popularidade no Brasil, e as Copas têm repercussão nacional. Cultural, um símbolo, uma paixão, o que explica esse fenômeno? Comemora-se: “Pelo menos nisso o Brasil é bom!”. Até que essa comemoração começou a incomodar. Passou-se a chamar o futebol de “ópio do povo”, como uma droga que impediria as massas de perceber os reais problemas sociais, criando uma satisfação ilusória. E assim,  irritados por sermos taxados de bobos e iludidos, pensamos: “por quê não podemos ser bons em educação, saúde, qualidade de vida, igualdade social?”, combatendo até mesmo o futebol.

Os protestos pré-copa são um exemplo dessa situação: reclamou-se muito pelo dinheiro investido “para inglês ver”, ao invés de servir para o bem estar social. “Não somos mais iludidos pelo ópio do futebol!”, foi como se estivessem clamando. Juntou-se a isso a falta de confiança na capacidade de suportar um evento de tal porte,  pela inconsistência do governo e a falta de moral e ética que ele transmite aos cidadãos.

E mesmo assim, o evento teve início, e continuaram os protestos. Que em nada mais adiantariam, visto que o dinheiro reclamado  já havia sido gasto. Mas o sentimento de impotência e incapacidade do brasileiro frente aos problemas de seu país, às vezes culmina em uma fúria desmedida. Que também não resolve muita coisa.

Mas no final correu tudo aparentemente bem. Quer dizer, não tão mal quanto o esperado. Notícias ruins foram ocultas? Sendo ou não, o futebol envolveu a todos, cada vez mais.  A repercussão positiva se espalhou. Apesar dos pesares, o sentimento de unir vários países em um mesmo local, a expectativa da vitória, e várias pessoas de lugares diferentes se conectarem pelo mesmo ideal transmitem uma energia incrível. O desempenho favorável do time brasileiro e sua chegada às semifinais, inevitavelmente, faz o povo alegre – até os que fingem não ligar pra isso.

De repente, o time toma a maior derrota da história do futebol brasileiro.  De forma inexplicável. O que aconteceu? Ninguém consegue responder. Se estivesse jogando tão mal, não teria se saído bem desde o começo? Com a falta de dois jogadores essenciais, tudo desmoronou? E o técnico? E os reservas? E a equipe?

Mal estar nacional. Sentimento de humilhação. Alguns jogadores choravam desesperadamente após a partida, demonstrando a vergonha que aquilo causou. Culpas e culpados por todo o lado. O zagueiro David Luiz disse, entre lágrimas, que “só queria fazer seu povo feliz. Esse povo que já sofre tanto, para pelo menos ficarem felizes com o futebol. Mas não conseguimos. Desculpe!”

Através desse discurso, parece que o futebol assume significados além da própria partida, como a felicidade de uma nação.  Talvez, algo pesado demais para apenas um esporte. É pressão demais alguém colocar esse peso sobre os ombros. Seria porque a vitória no futebol acaba sanando um sentimento de inferioridade nacional? Talvez não seria esse, de fato, um ópio do povo? Pelos problemas políticos e sociais que precisamos engolir, mas nos envergonham e causam um tipo de culpa reprimida, ou orgulho impossível.

Pelo menos o futebol anestesia a nossa impotência, pois é uma das poucas vitórias concretas que acontecem de verdade?

Os políticos deveriam carregar a responsabilidade de um país nos ombros, e não seus jogadores de futebol. Depositemos no futebol as esperanças apenas do futebol, e pronto, não extrapolando o que ele, como um esporte, pode oferecer. O que já é em si, suficiente, e particularmente, muito legal.

Povo legal, mas uma bagunça geral

Acessando o Facebook, me deparei com uma notícia com alguns compartilhamentos, e algumas reações chocadas: “Revista francesa resume o Brasil em todos os sentidos“.  Pelo que pareceu, os franceses deram uma baixada na nossa moral, mesmo que ela já não seja lá essas coisas, com tópicos do tipo “o brasileiro liga mais pra futebol do que política”,  “O Brasil precisa importar médicos de Cuba, já que não tem competência para formar médicos no próprio país”,  “A Presidente Brasileira parece estar alienada da realidade”, dentre outros.

Dei uma passada rápida, mas não tive paciência para ler tudo. Por não suportar ver as falhas do meu país descritas? Por não me conformar que estrangeiros possam fazer esses comentários? Por meu coração patriota não aguentar? Não, porque tudo isso não me é nenhuma novidade.  Sinceramente, não entendi as reações chocadas sobre a notícia. Os franceses só perceberam e pararam para escrever uma coisa óbvia – que não parece ser tão óbvia assim para os próprios brasileiros pelas reações impressionadas. Convivemos com os problemas diariamente e quando expostos a nós com ironia e crítica por meio de um texto, ficamos chocados. Será que isso acontece pelo tanto que estamos acostumados a fingir que não estamos vendo a realidade? Acostumados aos problemas?

Não é por ter nascido aqui e vivido aqui toda minha vida que vou me deixar levar por sentimentalismos baratos do tipo “goste do país em que você está”, “ame o seu lar”, “tenha devoção pelo verde amarelo”, e perder meu senso crítico.

O fato é que concordo com os pontos exibidos nessa revista francesa. Não preciso nem ler a matéria inteira para isso. O Brasil merece ser criticado.

“Poxa, há muitas pessoas e coisas legais aqui que não mereceriam ser criticadas”. Pois é, mas infelizmente, os problemas aparecem muito mais que isso, e qual a solução? Resolvê-los, e não “amar o seu país”.

Porém, quando começo a pensar em resolver os problemas daqui, parece que me perco em um nó sem fim.

Ao mesmo tempo em que há pessoas que moram em favelas, mas tem um smartphone, há as que moram em mansões e estão mais preocupadas com suas férias de verão e seu carro novo, que  será blindado de todo o jeito, já que o roubo é sempre uma possibilidade.

Aí a favela virou um lugar legal de se morar, que tem povo e cultura próprios, de forma defendida pelos ativistas contra o preconceito, porém não seria melhor que as pessoas pudessem sair das favelas?

Aí de repente, o povo começa a manifestar sua insatisfação, um movimento que poderia até ser interessante. Porém no meio disso aparecem pessoas quebrando orelhões e agências bancárias, e etc, e aí o problema de tudo vira a Copa.

E o governo se mantém totalmente alheio, ao povo, ao transporte público, ao ensino, à saúde, poque quem ocupa o topo da pirâmide monetária não precisa se preocupar com isso. Se os políticos têm todas as suas necessidades supridas, então pra quê se preocupar? Realmente, é muito mais fácil agir assim, e permitido. E quem irá tirar o governo dessa posição confortável?

Enquanto isso, os intelectuais fazem suas próprias manifestações, citando teóricos em seus protestos, em uma mini guerrinha intelectualoide entre “esquerda” e “direita”.

Enquanto isso, mendigos nas ruas estendem suas mãos, falam sozinhos, cheiram mal, e exibem seus filhos para os transeuntes. Ao mesmo tempo funcionários saem de seu serviço de 8 horas na frente de um computador, em cima de seus saltos e dentro de seus ternos, pensando em aguentar mais xis dias de trabalho para sua próxima viagem à Disney.

Faço minhas as palavras de Caetano.

Notícia em: http://hamiltonxavier.blogspot.com.br/2014/02/revista-francesa-resume-o-brasil-em.html

Vida Vitrine

Há um tempo atrás, li um artigo que comentava sobre a juventude atual urbana, ocidental, classe média, estar constantemente deprimida. O motivo seriam aspirações altas demais, por causa de uma realidade com “tudo pronto”, em que as aspirações reais e concretas – ter uma carreira, ganhar dinheiro, se manter – ficaram pra escanteio,  porque foram incorporadas pela geração anterior, os pais e mães desses jovens atuais.  Ao invés do contentamento com o concreto, fica sempre o vazio de um abstrato que nunca acontece – trabalhar é chato, o emprego não está bom, não me encontro nos estudos, etc.

Adicionado a isso vem a internet e o uso das redes sociais, em que esses jovens querem transmitir uma ideia de si mesmos que corresponda a essas aspirações impossíveis e distantes do que é real. Aí que todo mundo parece legal, fazendo coisas legais, sempre no badalo, com amigos todo dia e companhia toda hora. E aí que a grama do outro parece sempre mais verde, e vem o tal descontentamento.

O Facebook virou um vício moderno – você pode fazer dele seu jornal pessoal, em que você é o editor, redator e jornalista. Seu público são seus amigos que obrigatoriamente vão ver aquilo que foi publicado, pois o foco é o que está sendo divulgado pelos outros.

Principalmente, a esperteza da coisa é que é multifuncional. Se não gostar muito de compartilhar seus pensamentos, você pode usar os joguinhos, ou conversar com seus amigos, ou entrar em “grupos” que tenham informações úteis para você. Ou seja, o negócio faz tudo.  Concentrou várias funções ao mesmo tempo, e atende às principais necessidades do mundo em rede, por isso,  a atual dificuldade em se livrar dele, ou substituí-lo. Sem utilizá-lo você… você…. vira um homem das cavernas? Bom, conheço (ainda!) pessoas que não tem facebook e vivem normalmente. Imagino que percam oportunidades que essa conexão múltipla e multifacetada pode trazer. Mas, ainda sobrevivem. E vivem normalmente. E bem, por sinal.

Pensando na vida pré facebook e pós facebook…. Parece que hoje criou-se a necessidade de divulgar. Você divulga a mídia que quiser, texto, vídeo, imagem, criação própria ou alheia, e nada mais é segredo. A graça é publicar. E essa graça só se completa com a reação do público – o botão curtir. Isso tem seu lado interessante, pois uma ferramenta que permite compartilhar realmente fazia falta na era pré facebook – as boas ideias, a comunicação, a velocidade da informação, tudo agora gira e pode ser exposto – a exposição às vezes é interessante e saudável.

Porém, parece que a vida com o facebook torna-se uma vida de exposição, ou “vida vitrine”. Cada coisa legal que alguém pode estar fazendo em um canto xis do universo precisa ser fotografada, divulgada, comentada. E isso se junta com a tal geração infeliz, e vira algo meio doente/ ridículo.  Aquela viagem que você fez, aquela festa em que foi com seus amigos, a roupa nova que você está usando, seu reflexo do espelho do banheiro, precisam ter uma foto publicada no face. 

As pessoas não conseguem mais viver suas vidas sem pensar na possibilidade de exposição. Cada coisa interessante que vivem parece estar carimbada com o logo do facebook.

E pior: algumas pessoas usam essa ferramenta como um “book” pessoal. A pessoa divulga a própria cara nos mais diferentes ângulos, gêneros, números e graus, e faz isso só em função de ter curtidas, ou comentários. Talvez tenha-se criado uma autoestima dependente de exposição e comentários, ou pior, aprovação social obsessiva – vai me dizer que tirar uma foto da própria cara no espelho do banheiro e divulgar dizendo “bom dia” não é obsessivo???

Algo que antes provocaria reações do tipo: que vergonha, só mostro essa foto pra minha mãe e a minha vó, agora tornou-se normal.

Pelos meus fones naturais ouço a rádio ônibus

Não conseguiria andar pela rua todo tempo com fones nos ouvidos. Preciso ouvir os barulhos em volta. Isso ajuda na minha concentração, e atenção com as coisas e pessoas ao redor. Ficaria muito desatenta com um barulho no meu ouvido que não fosse o do ambiente.  E até meio desnorteada, tipo um gato com o rabo amarrado.

Acho que há coisas demais pra prestar atenção ou se distrair, para ficar só focado em uma música. O ambiente tem muitos detalhes pra prestar atenção. Pra ficar alerta, mas que são interessantes também. Ouvir o som da rua, das pessoas, do lugar em que estou, isso até me agrada de vez em quando. Por exemplo, é interessante ouvir conversas aleatórias de pessoas por aí.

Além do que, acho meio perigoso ficar andando por aí ouvindo uma música direto nos ouvidos. Ouvir ajuda muito na noção de espaço, o que é fundamental enquanto se anda pela cidade. Muitas vezes que alguém estava andando no meio da rua sem dar passagem, ou sem andar em linha reta, quando dei uma olhada mau humorada com vontade de fazer uma careta vi que a criatura estava de fones. Tinha que ser.

Até gente dirigindo de fones tem.  Isso deve causar acidentes! Mas ninguém parou ainda pra fazer uma pesquisa sobre isso. Ou, é mais perigoso que as pessoas entendam mal e pensem que é pra deixar de usar fones, se tornando um show andante de música chiada.

Enfim, eu não perco a chance de me surpreender com o que fala o povo por aí. Talvez, aqui em São Paulo isso seja quase uma experiência antropológica. A divisão da sociedade em classes sociais e a diferença entre elas faz com que as pessoas sejam muito próximas das outras que são parecidas.

O único momento em que as classes sociais  se encontram é na oferta-procura de trabalho. E este não é um espaço em que é sempre possível trocar muitas opiniões. Alguns integrantes desses dois grupos  até se desagradam se o contato atinge esse ponto. Estão tão fechados em seu pequeno meio, que a noção de um “outro” é apenas funcional, quase insignificante. Não chega a compreensão de que esse “outro” possui outra realidade, e logo, opiniões e um jeito de entender o mundo, diferentes.

Acho que o ônibus é um espaço em que essa troca é possível, pois todos encontram-se como iguais. Todos espremidos. Apesar de que o transporte público ainda concentra maior parte da população com menor poder aquisitivo. Marca da desigualdade de renda, que causa desigualdade nas condições de vida, e isso se reflete em desigualdade no tratamento entre as pessoas, tornando-nos uma sociedade polarizada classe média x periferia. No ônibus, apesar dos pesares, é um pequeno momento em que a barreira se rompe, pelo menos um pouco.

Nas conversas de ônibus, tem uma coisa que me chama atenção e que já ouvi mais de uma vez. Exemplos:

“Esse cruzamento é muito perigoso, e o ponto de ônibus é muito perto dele. Um motoqueiro já sofreu um acidente aqui. E ninguém faz nada. Quero só ver se um ricaço que morrer, daí vão fazer alguma coisa.”

“Esse povo fazendo manifestação e passeata até hoje, não tem o que fazer. Estão lá na frente do palácio do governo. E ainda tem a cara de pau de escrever que aceitam doação de comida. Vai ver se a conta deles não é gorda! Os ricos que passam dão comida, ainda por cima.”

“Para os pobres ninguém faz nada, agora vai ver se for pro rico. Se a gente morrer tudo bem, agora vai ver se forem eles.”

E coisas do tipo.

Na minha vida até agora, tive oportunidade de não ter os olhos vendados pra o lugar em que vivo. É cruel o dinheiro que você tem definir quem você é, e sei que no lugar em que vivemos isso acontece. Sei da desigualdade social e do sofrimento de pessoas que não tem acesso a todos os benefícios que o dinheiro poderia oferecer. Mas, no momento em que isso vira comentário vazio, e se torna uma ladainha, o problema de verdade acaba sendo esquecido. Veste-se uma capa de “sou relegado”, ou “coitado, é pobre” e pronto.

Claro que é bom que todos tenham consciência das injustiças sociais. Mas acaba soando como muro das lamentações. E cria uma generalização. E a ideia de um inimigo que causou esse problema, mas que não é o motivo real dessas injustiças. E polariza tudo ainda mais.

A educação que ainda falta não vai fazer apenas com que as pessoas tenham consciência do problema. Mas que simplesmente ele seja mudado. E pronto.