Final Copa do Brasil 2015, o conflito, enredo e a reviravolta

Aproveitando que hoje é dia dos porcos felizes (Palmeiras ganhou a Copa do Brasil), venho ilustrar esse acontecimento, não com comentários típicos e tão chatos como vuvuzelas da língua escrita, como “chuupa não sei quem”, “toooma não sei que lá”. Mas sim, com uma conversa ouvida no bus:

– então, fui lá *não sei onde* torcer pro Palmeiras, mas só tinha Corinthiano e São Paulino (…)(ruídos) de resto só tinha uns 5, 6.
– sim (os palmeirenses), são minorias étnicas.
…..(?)…..

Apesar de ser São Paulina, e ter altos e baixos no acompanhamento do futebol, sou bem tranquila e gosto de um joguinho bem jogado. Eu torço mesmo é para a intriga, o enredo e a reviravolta.

Discutir ou não discutir, eis a questão

Muitas vezes as pessoas dizem coisas que eu discordo. Mas não é sempre que eu retruco, expondo meu ponto de vista contrário. Às vezes por educação, às vezes pra manter a amizade, às vezes para não ser indelicada. Às vezes porque eu acho discussão uma perda de tempo. Ou talvez eu nem saiba o porquê disso.

Pra algumas pessoas expressar a opinião é algo muito natural. Tanto, que podem até soar desrespeitosas às vezes. Mas mesmo essas pessoas conseguem ter uma socialização saudável, quero dizer, ter amigos. Já me perguntei se elas seriam mais felizes, pois mesmo sempre expressando a opinião há pessoas que as aceitam. Já me senti “guardando” opiniões, sem saber se valeria mais a pena extravasá-las logo, mesmo se houvesse consequências negativas, como perder uma amizade. Pelo menos, meus amigos saberiam minha opinião de fato e gostariam de mim por ela. (Por ela ou apesar dela?)

Para encarar esse meu jeito sem crises, procuro pensar que todos temos nosso modo próprio de ser, reagir, e encarar as coisas. O ocultamento de opinião pode não ser um defeito, mas uma preferência. E sei que não é sempre que minha opinião é oculta – para muitas coisas a mostro, para outras não, e isso depende. Às vezes acredito em coisas que podem ser polêmicas, que talvez não fossem tão fáceis de explicar em uma discussão. E muito menos resolver.

Por isso às vezes acho que discutir é inútil, não resolve o problema em questão. É apenas um esforço persuasivo para colocar uma opinião que pode causar um embate, produtivo apenas no nível psicológico. Ou seja, o resultado seria fazer o outro mudar de opinião: “a” fez “b” acreditar em “a”. Que vitória mais medíocre. No plano do real não muda nada.

Por isso, opinião não é algo tão simples, pode envolver imposição, invasão… é sábio ponderar quando mostrar ou ocultar uma opinião. Isso não é sempre um processo tão claro também, nem fácil de acertar. Mas é no processo de tentativa e erro que construímos nossas relações com as outras pessoas…

Admito que já cheguei a ficar muito irritada quando uma opinião me incomodou e não me expressei quanto a isso. Procurei pensar que a não-expressão teve seus motivos para superar a irritação. Mas será que ela não surgiu porque eu também gostaria de impor uma opinião “a” à pessoa “b”? E tenho medo de não arranjar argumentos suficientes, ou “perder” a discussão, e por isso acabo ficando quieta.

Enfim, nesse dilema, escrever ajuda (ah, por isso que eu tenho um blog?). Mas já tentei expor opiniões no Face e sempre acabo passando nervoso. Desisti. Tenho um lado combativo que gosta de expor opiniões, mas um outro pacífico que não gosta de brigas, e isso é um conflito difícil ;_;.

Já cheguei a pensar que discutir não era pra mim. Já achei minha opinião correta e iluminadora, mas eu ia deixar a humanidade sem sabê-la, e azar o dela. A tradição do ioga tem uma linha contemplativa, que defende que o mundo continua o mesmo apesar de nós, e não por nossa causa. Logo, qualquer esforço implicado na mudança é inútil, pois ela deve ocorrer de forma natural. Então o povo que se vire.

Aí no meu blog eu sou dona do meu texto, e crio um monólogo, e assim sou feliz.

Porém, li um artigo na Galileu que me fez muito refletir sobre a arte do debate. E até aliviou minhas questões não resolvidas sobre isso. Quando algo nos incomoda, talvez mudar nossa própria percepção sobre o problema seja uma boa solução, ou encará-lo de forma diferente.

Virou meu artigo de cabeceira, encontra-se aqui

A escolha profissional, a universidade, o mercado e o Brasil: alternativa ‘a’ ou ‘b’.

Lembro há alguns anos atrás quando eu virava as páginas do Manual do Candidato para prestar o vestibular e me deparei com a definição do curso de Letras. E assim, fiz minha escolha, não muito segura, não muito certa, nem motivada. Mas sentia que precisava escolher alguma coisa.

Esses tantos ingressantes como eu podem ter tido as mais diversas motivações: a indecisão, a pressão, a verdadeira vocação e vontade, e alguns outros, “dar aula jamais” (fazer só o bacharelado e não a licenciatura, parte que habilita a lecionar). O ensino não é a opção de muitos que escolhem Letras, apesar do senso comum imaginar que esse seja o único caminho.

A universidade questiona o senso comum porque é um conhecimento pronto e fácil que nem sempre explica a realidade dos fatos.

Mas nesse momento parece-me que o senso comum não é um adversário tão fácil assim de combater quanto parecia. Na hora de arrumar um emprego, Letras = dar aula. E então, no momento encontro-me cursando a licenciatura, apesar de nunca ter sonhado em ser professora.

Não tenho uma visão preconceituosa e estereotipada dessa profissão, do tipo: “que horror, você quer ser professor?” – eu já ouvi isso. É algo muito digno, uma missão, que interfere no mundo e na realidade! Porém, é fato que não é reconhecida como deveria no Brasil. Mas onde há problemas é preciso buscar a solução e não conformar-se, não? Por isso, porque não ser professor?

Apesar da motivação revolucionária que a luta pela educação inspira, ainda não consigo dizer que é minha escolha.

A universidade não considera crenças pessoais como explicação para nada, porque o subjetivo não é científico.

Mas ainda acredito no “dom” da vocação, que ninguém ensina. E não sinto ter exatamente o dom para a educação. Sempre quis ser das artes visuais, e não fui.

Se eu tivesse que aconselhar alguém em fase de escolha da profissão, diria: escolha o que você quiser, e pronto. Não fui para as artes por ouvir que era uma área difícil. Optei por Letras por pensar que poderia encontrar um campo mais amplo, principalmente com revisão e tradução. E está tão difícil arranjar trabalho nisso quanto talvez fosse em artes visuais.

Eu não aguento mais mandar currículo para todo canto – já escrevi o que já fiz, o que sei fazer, o que posso fazer, e o que poderia fazer, inúmeras vezes. E nada.

A universidade se baseia nos fatos e as crenças subjetivas não explicam ciência nenhuma.

Mas ainda tenho mais uma sobre isso: acho que quanto mais repetimos alguma afirmação negativa, mais ela é reforçada e pode acontecer. Então pensei em parar de dizer que está difícil encontrar trabalho. E cá estou eu aqui escrevendo sobre isso.

Resta-me continuar em vários grupos de anúncio de vagas no Facebook, vasculhando a internet e mandando currículos.

Até que em um desses grupos do Facebook apareceu a questão: “o problema sou eu ou está difícil encontrar emprego?”, e teve umas 400 curtidas e vários comentários reclamando sobre isso.

Nos momentos “muro das lamentações” inúmeras injustiças aparecem, que podem (ou não) ter sua parcela de verdade. Eu reclamo do tanto de experiência requisitada nas vagas ultimamente. E mesmo em vagas que até acho ter alguma chance não recebo nem ligação por engano. Os concorrentes estão tão experientes e com perfis tão estonteantes? Sinceramente não me lembro de ter convivido com pessoas tão maravilhosas assim não e até meio folgadas (julgando os coleguinhas).

Também acabo culpando o preconceito à minha área, que Letras está sucateado, ninguém dá valor, e todo mundo só liga pra Engenharia. Até que encontrei um engenheiro que também disse que está difícil arranjar emprego.

Então, pode ser que esteja difícil mesmo.

Porém, aprendi nessas aulas da Licenciatura, que estamos vivendo um momento de “bônus demográfico”, ou seja, maior parte da população em idade ativa e pronta para oferecer sua força de trabalho.

Assinale a alternativa que você considera provável sobre o que vai acontecer frente a esse cenário demográfico brasileiro:

a) Momento em que muitos jovens em idade de ingressar no mercado geram força de trabalho, sendo um prato cheio para o desenvolvimento econômico do Brasil. Esses jovens inserem-se em atividades que não só estimulam o crescimento econômico do país, mas também o social, como políticas públicas, serviços e 3º setor, trazendo enriquecimento e melhorias gerais.

b) Bem nesse momento entramos em crise. Crise financeira por má administração pública, déficit comercial, PIB negativo, corrupção. Alta do dólar, recessão do mercado. E todos esses jovens que poderiam estar gerando crescimento estão aglomerados sem encontrar lugar no mercado de trabalho.

O Brasil, o futebol e o ano da Copa

Minha vó um dia me disse que 7 era o número do mentiroso. Se alguma pessoa dissesse, por exemplo, “eu vi 7 pássaros verdes voando”, era mentira. Desta forma, se alguém disser que o Brasil perdeu de 7×1 na Copa de 2014 jogando em casa, pode-se considerar que é mentira!

O futebol sempre teve forte popularidade no Brasil, e as Copas têm repercussão nacional. Cultural, um símbolo, uma paixão, o que explica esse fenômeno? Comemora-se: “Pelo menos nisso o Brasil é bom!”. Até que essa comemoração começou a incomodar. Passou-se a chamar o futebol de “ópio do povo”, como uma droga que impediria as massas de perceber os reais problemas sociais, criando uma satisfação ilusória. E assim,  irritados por sermos taxados de bobos e iludidos, pensamos: “por quê não podemos ser bons em educação, saúde, qualidade de vida, igualdade social?”, combatendo até mesmo o futebol.

Os protestos pré-copa são um exemplo dessa situação: reclamou-se muito pelo dinheiro investido “para inglês ver”, ao invés de servir para o bem estar social. “Não somos mais iludidos pelo ópio do futebol!”, foi como se estivessem clamando. Juntou-se a isso a falta de confiança na capacidade de suportar um evento de tal porte,  pela inconsistência do governo e a falta de moral e ética que ele transmite aos cidadãos.

E mesmo assim, o evento teve início, e continuaram os protestos. Que em nada mais adiantariam, visto que o dinheiro reclamado  já havia sido gasto. Mas o sentimento de impotência e incapacidade do brasileiro frente aos problemas de seu país, às vezes culmina em uma fúria desmedida. Que também não resolve muita coisa.

Mas no final correu tudo aparentemente bem. Quer dizer, não tão mal quanto o esperado. Notícias ruins foram ocultas? Sendo ou não, o futebol envolveu a todos, cada vez mais.  A repercussão positiva se espalhou. Apesar dos pesares, o sentimento de unir vários países em um mesmo local, a expectativa da vitória, e várias pessoas de lugares diferentes se conectarem pelo mesmo ideal transmitem uma energia incrível. O desempenho favorável do time brasileiro e sua chegada às semifinais, inevitavelmente, faz o povo alegre – até os que fingem não ligar pra isso.

De repente, o time toma a maior derrota da história do futebol brasileiro.  De forma inexplicável. O que aconteceu? Ninguém consegue responder. Se estivesse jogando tão mal, não teria se saído bem desde o começo? Com a falta de dois jogadores essenciais, tudo desmoronou? E o técnico? E os reservas? E a equipe?

Mal estar nacional. Sentimento de humilhação. Alguns jogadores choravam desesperadamente após a partida, demonstrando a vergonha que aquilo causou. Culpas e culpados por todo o lado. O zagueiro David Luiz disse, entre lágrimas, que “só queria fazer seu povo feliz. Esse povo que já sofre tanto, para pelo menos ficarem felizes com o futebol. Mas não conseguimos. Desculpe!”

Através desse discurso, parece que o futebol assume significados além da própria partida, como a felicidade de uma nação.  Talvez, algo pesado demais para apenas um esporte. É pressão demais alguém colocar esse peso sobre os ombros. Seria porque a vitória no futebol acaba sanando um sentimento de inferioridade nacional? Talvez não seria esse, de fato, um ópio do povo? Pelos problemas políticos e sociais que precisamos engolir, mas nos envergonham e causam um tipo de culpa reprimida, ou orgulho impossível.

Pelo menos o futebol anestesia a nossa impotência, pois é uma das poucas vitórias concretas que acontecem de verdade?

Os políticos deveriam carregar a responsabilidade de um país nos ombros, e não seus jogadores de futebol. Depositemos no futebol as esperanças apenas do futebol, e pronto, não extrapolando o que ele, como um esporte, pode oferecer. O que já é em si, suficiente, e particularmente, muito legal.

Fanatismo

Algumas críticas que antes seriam tabus hoje em dia são discutidas com maior liberdade e posicionamento crítico. Por exemplo, a crítica que surge ao fanatismo religioso. Há muitos séculos, qualquer ideia contrariando os princípios da Igreja era inadmissível. As pessoas obedeciam às leis da Igreja por sentirem medo de contestá-las, até em suas próprias mentes. Quando conseguimos nos desvencilhar do poder que algo exerce, somos capazes de analisar racionalmente o que aquela crença está exercendo sobre nós e os outros. Por exemplo, hoje somos capazes de criticar e até combater os dogmas da Igreja, porque conseguimos criar outras interpretações para o que era absoluto. Apesar da polêmica e da resistência de muitos, a discussão é possível.

Além disso, acho que hoje em dia torna-se até difícil centrar todas as características de uma coisa em uma Instituição. Exemplo: O que seria “A Igreja” hoje em dia? O Vaticano? Mas até o Papa atual parece dar uma margem maior para interpretações, sem impor uma verdade. Existem inúmeras vertentes religiosas, que podem ser tão impositivas como a Inquisição da Idade Média – ou o contrário. Fora as pessoas que compõe essas vertentes religiosas, que podem ser mais liberais ou conservadoras dentro de cada crença.

Usei o fanatismo religioso como exemplo porque ele é bastante criticado hoje. Porém vejo o mesmo fanatismo em algumas outras crenças que existem por aí, no nível de um fanatismo religioso. Exemplo: a oposição “direita” e “esquerda” é levada tão a ferro e fogo algumas vezes, que se assemelha a um fanatismo religioso dos mais delimitadores, obtusos e generalizantes. Julgando as pessoas de uma mesma crença como se fossem todas objetos saídos de uma mesma linha de produção. A oposição existe porque se baseia em princípios diferentes, ok, porém os que se dizem pertencentes a ambos os lados fazem a mesma coisa em seu julgamento dos outros. “Vc está daquele lado, então vc é feio, mau e bobo, e a culpa é sua”. E a multiplicidade de crenças, culturas e pessoas com suas n combinações psicológicas fica onde? Não seria isso que usamos para combater o preconceito e os estereótipos?

Cuidado com o fanatismo que pode estar nas suas crenças sem que perceba. O preconceito que você combate pode estar em suas próprias ações.

Povo legal, mas uma bagunça geral

Acessando o Facebook, me deparei com uma notícia com alguns compartilhamentos, e algumas reações chocadas: “Revista francesa resume o Brasil em todos os sentidos“.  Pelo que pareceu, os franceses deram uma baixada na nossa moral, mesmo que ela já não seja lá essas coisas, com tópicos do tipo “o brasileiro liga mais pra futebol do que política”,  “O Brasil precisa importar médicos de Cuba, já que não tem competência para formar médicos no próprio país”,  “A Presidente Brasileira parece estar alienada da realidade”, dentre outros.

Dei uma passada rápida, mas não tive paciência para ler tudo. Por não suportar ver as falhas do meu país descritas? Por não me conformar que estrangeiros possam fazer esses comentários? Por meu coração patriota não aguentar? Não, porque tudo isso não me é nenhuma novidade.  Sinceramente, não entendi as reações chocadas sobre a notícia. Os franceses só perceberam e pararam para escrever uma coisa óbvia – que não parece ser tão óbvia assim para os próprios brasileiros pelas reações impressionadas. Convivemos com os problemas diariamente e quando expostos a nós com ironia e crítica por meio de um texto, ficamos chocados. Será que isso acontece pelo tanto que estamos acostumados a fingir que não estamos vendo a realidade? Acostumados aos problemas?

Não é por ter nascido aqui e vivido aqui toda minha vida que vou me deixar levar por sentimentalismos baratos do tipo “goste do país em que você está”, “ame o seu lar”, “tenha devoção pelo verde amarelo”, e perder meu senso crítico.

O fato é que concordo com os pontos exibidos nessa revista francesa. Não preciso nem ler a matéria inteira para isso. O Brasil merece ser criticado.

“Poxa, há muitas pessoas e coisas legais aqui que não mereceriam ser criticadas”. Pois é, mas infelizmente, os problemas aparecem muito mais que isso, e qual a solução? Resolvê-los, e não “amar o seu país”.

Porém, quando começo a pensar em resolver os problemas daqui, parece que me perco em um nó sem fim.

Ao mesmo tempo em que há pessoas que moram em favelas, mas tem um smartphone, há as que moram em mansões e estão mais preocupadas com suas férias de verão e seu carro novo, que  será blindado de todo o jeito, já que o roubo é sempre uma possibilidade.

Aí a favela virou um lugar legal de se morar, que tem povo e cultura próprios, de forma defendida pelos ativistas contra o preconceito, porém não seria melhor que as pessoas pudessem sair das favelas?

Aí de repente, o povo começa a manifestar sua insatisfação, um movimento que poderia até ser interessante. Porém no meio disso aparecem pessoas quebrando orelhões e agências bancárias, e etc, e aí o problema de tudo vira a Copa.

E o governo se mantém totalmente alheio, ao povo, ao transporte público, ao ensino, à saúde, poque quem ocupa o topo da pirâmide monetária não precisa se preocupar com isso. Se os políticos têm todas as suas necessidades supridas, então pra quê se preocupar? Realmente, é muito mais fácil agir assim, e permitido. E quem irá tirar o governo dessa posição confortável?

Enquanto isso, os intelectuais fazem suas próprias manifestações, citando teóricos em seus protestos, em uma mini guerrinha intelectualoide entre “esquerda” e “direita”.

Enquanto isso, mendigos nas ruas estendem suas mãos, falam sozinhos, cheiram mal, e exibem seus filhos para os transeuntes. Ao mesmo tempo funcionários saem de seu serviço de 8 horas na frente de um computador, em cima de seus saltos e dentro de seus ternos, pensando em aguentar mais xis dias de trabalho para sua próxima viagem à Disney.

Faço minhas as palavras de Caetano.

Notícia em: http://hamiltonxavier.blogspot.com.br/2014/02/revista-francesa-resume-o-brasil-em.html

Vida Vitrine

Há um tempo atrás, li um artigo que comentava sobre a juventude atual urbana, ocidental, classe média, estar constantemente deprimida. O motivo seriam aspirações altas demais, por causa de uma realidade com “tudo pronto”, em que as aspirações reais e concretas – ter uma carreira, ganhar dinheiro, se manter – ficaram pra escanteio,  porque foram incorporadas pela geração anterior, os pais e mães desses jovens atuais.  Ao invés do contentamento com o concreto, fica sempre o vazio de um abstrato que nunca acontece – trabalhar é chato, o emprego não está bom, não me encontro nos estudos, etc.

Adicionado a isso vem a internet e o uso das redes sociais, em que esses jovens querem transmitir uma ideia de si mesmos que corresponda a essas aspirações impossíveis e distantes do que é real. Aí que todo mundo parece legal, fazendo coisas legais, sempre no badalo, com amigos todo dia e companhia toda hora. E aí que a grama do outro parece sempre mais verde, e vem o tal descontentamento.

O Facebook virou um vício moderno – você pode fazer dele seu jornal pessoal, em que você é o editor, redator e jornalista. Seu público são seus amigos que obrigatoriamente vão ver aquilo que foi publicado, pois o foco é o que está sendo divulgado pelos outros.

Principalmente, a esperteza da coisa é que é multifuncional. Se não gostar muito de compartilhar seus pensamentos, você pode usar os joguinhos, ou conversar com seus amigos, ou entrar em “grupos” que tenham informações úteis para você. Ou seja, o negócio faz tudo.  Concentrou várias funções ao mesmo tempo, e atende às principais necessidades do mundo em rede, por isso,  a atual dificuldade em se livrar dele, ou substituí-lo. Sem utilizá-lo você… você…. vira um homem das cavernas? Bom, conheço (ainda!) pessoas que não tem facebook e vivem normalmente. Imagino que percam oportunidades que essa conexão múltipla e multifacetada pode trazer. Mas, ainda sobrevivem. E vivem normalmente. E bem, por sinal.

Pensando na vida pré facebook e pós facebook…. Parece que hoje criou-se a necessidade de divulgar. Você divulga a mídia que quiser, texto, vídeo, imagem, criação própria ou alheia, e nada mais é segredo. A graça é publicar. E essa graça só se completa com a reação do público – o botão curtir. Isso tem seu lado interessante, pois uma ferramenta que permite compartilhar realmente fazia falta na era pré facebook – as boas ideias, a comunicação, a velocidade da informação, tudo agora gira e pode ser exposto – a exposição às vezes é interessante e saudável.

Porém, parece que a vida com o facebook torna-se uma vida de exposição, ou “vida vitrine”. Cada coisa legal que alguém pode estar fazendo em um canto xis do universo precisa ser fotografada, divulgada, comentada. E isso se junta com a tal geração infeliz, e vira algo meio doente/ ridículo.  Aquela viagem que você fez, aquela festa em que foi com seus amigos, a roupa nova que você está usando, seu reflexo do espelho do banheiro, precisam ter uma foto publicada no face. 

As pessoas não conseguem mais viver suas vidas sem pensar na possibilidade de exposição. Cada coisa interessante que vivem parece estar carimbada com o logo do facebook.

E pior: algumas pessoas usam essa ferramenta como um “book” pessoal. A pessoa divulga a própria cara nos mais diferentes ângulos, gêneros, números e graus, e faz isso só em função de ter curtidas, ou comentários. Talvez tenha-se criado uma autoestima dependente de exposição e comentários, ou pior, aprovação social obsessiva – vai me dizer que tirar uma foto da própria cara no espelho do banheiro e divulgar dizendo “bom dia” não é obsessivo???

Algo que antes provocaria reações do tipo: que vergonha, só mostro essa foto pra minha mãe e a minha vó, agora tornou-se normal.