Fanatismo

Algumas críticas que antes seriam tabus hoje em dia são discutidas com maior liberdade e posicionamento crítico. Por exemplo, a crítica que surge ao fanatismo religioso. Há muitos séculos, qualquer ideia contrariando os princípios da Igreja era inadmissível. As pessoas obedeciam às leis da Igreja por sentirem medo de contestá-las, até em suas próprias mentes. Quando conseguimos nos desvencilhar do poder que algo exerce, somos capazes de analisar racionalmente o que aquela crença está exercendo sobre nós e os outros. Por exemplo, hoje somos capazes de criticar e até combater os dogmas da Igreja, porque conseguimos criar outras interpretações para o que era absoluto. Apesar da polêmica e da resistência de muitos, a discussão é possível.

Além disso, acho que hoje em dia torna-se até difícil centrar todas as características de uma coisa em uma Instituição. Exemplo: O que seria “A Igreja” hoje em dia? O Vaticano? Mas até o Papa atual parece dar uma margem maior para interpretações, sem impor uma verdade. Existem inúmeras vertentes religiosas, que podem ser tão impositivas como a Inquisição da Idade Média – ou o contrário. Fora as pessoas que compõe essas vertentes religiosas, que podem ser mais liberais ou conservadoras dentro de cada crença.

Usei o fanatismo religioso como exemplo porque ele é bastante criticado hoje. Porém vejo o mesmo fanatismo em algumas outras crenças que existem por aí, no nível de um fanatismo religioso. Exemplo: a oposição “direita” e “esquerda” é levada tão a ferro e fogo algumas vezes, que se assemelha a um fanatismo religioso dos mais delimitadores, obtusos e generalizantes. Julgando as pessoas de uma mesma crença como se fossem todas objetos saídos de uma mesma linha de produção. A oposição existe porque se baseia em princípios diferentes, ok, porém os que se dizem pertencentes a ambos os lados fazem a mesma coisa em seu julgamento dos outros. “Vc está daquele lado, então vc é feio, mau e bobo, e a culpa é sua”. E a multiplicidade de crenças, culturas e pessoas com suas n combinações psicológicas fica onde? Não seria isso que usamos para combater o preconceito e os estereótipos?

Cuidado com o fanatismo que pode estar nas suas crenças sem que perceba. O preconceito que você combate pode estar em suas próprias ações.

Anúncios

Povo legal, mas uma bagunça geral

Acessando o Facebook, me deparei com uma notícia com alguns compartilhamentos, e algumas reações chocadas: “Revista francesa resume o Brasil em todos os sentidos“.  Pelo que pareceu, os franceses deram uma baixada na nossa moral, mesmo que ela já não seja lá essas coisas, com tópicos do tipo “o brasileiro liga mais pra futebol do que política”,  “O Brasil precisa importar médicos de Cuba, já que não tem competência para formar médicos no próprio país”,  “A Presidente Brasileira parece estar alienada da realidade”, dentre outros.

Dei uma passada rápida, mas não tive paciência para ler tudo. Por não suportar ver as falhas do meu país descritas? Por não me conformar que estrangeiros possam fazer esses comentários? Por meu coração patriota não aguentar? Não, porque tudo isso não me é nenhuma novidade.  Sinceramente, não entendi as reações chocadas sobre a notícia. Os franceses só perceberam e pararam para escrever uma coisa óbvia – que não parece ser tão óbvia assim para os próprios brasileiros pelas reações impressionadas. Convivemos com os problemas diariamente e quando expostos a nós com ironia e crítica por meio de um texto, ficamos chocados. Será que isso acontece pelo tanto que estamos acostumados a fingir que não estamos vendo a realidade? Acostumados aos problemas?

Não é por ter nascido aqui e vivido aqui toda minha vida que vou me deixar levar por sentimentalismos baratos do tipo “goste do país em que você está”, “ame o seu lar”, “tenha devoção pelo verde amarelo”, e perder meu senso crítico.

O fato é que concordo com os pontos exibidos nessa revista francesa. Não preciso nem ler a matéria inteira para isso. O Brasil merece ser criticado.

“Poxa, há muitas pessoas e coisas legais aqui que não mereceriam ser criticadas”. Pois é, mas infelizmente, os problemas aparecem muito mais que isso, e qual a solução? Resolvê-los, e não “amar o seu país”.

Porém, quando começo a pensar em resolver os problemas daqui, parece que me perco em um nó sem fim.

Ao mesmo tempo em que há pessoas que moram em favelas, mas tem um smartphone, há as que moram em mansões e estão mais preocupadas com suas férias de verão e seu carro novo, que  será blindado de todo o jeito, já que o roubo é sempre uma possibilidade.

Aí a favela virou um lugar legal de se morar, que tem povo e cultura próprios, de forma defendida pelos ativistas contra o preconceito, porém não seria melhor que as pessoas pudessem sair das favelas?

Aí de repente, o povo começa a manifestar sua insatisfação, um movimento que poderia até ser interessante. Porém no meio disso aparecem pessoas quebrando orelhões e agências bancárias, e etc, e aí o problema de tudo vira a Copa.

E o governo se mantém totalmente alheio, ao povo, ao transporte público, ao ensino, à saúde, poque quem ocupa o topo da pirâmide monetária não precisa se preocupar com isso. Se os políticos têm todas as suas necessidades supridas, então pra quê se preocupar? Realmente, é muito mais fácil agir assim, e permitido. E quem irá tirar o governo dessa posição confortável?

Enquanto isso, os intelectuais fazem suas próprias manifestações, citando teóricos em seus protestos, em uma mini guerrinha intelectualoide entre “esquerda” e “direita”.

Enquanto isso, mendigos nas ruas estendem suas mãos, falam sozinhos, cheiram mal, e exibem seus filhos para os transeuntes. Ao mesmo tempo funcionários saem de seu serviço de 8 horas na frente de um computador, em cima de seus saltos e dentro de seus ternos, pensando em aguentar mais xis dias de trabalho para sua próxima viagem à Disney.

Faço minhas as palavras de Caetano.

Notícia em: http://hamiltonxavier.blogspot.com.br/2014/02/revista-francesa-resume-o-brasil-em.html

Vida Vitrine

Há um tempo atrás, li um artigo que comentava sobre a juventude atual urbana, ocidental, classe média, estar constantemente deprimida. O motivo seriam aspirações altas demais, por causa de uma realidade com “tudo pronto”, em que as aspirações reais e concretas – ter uma carreira, ganhar dinheiro, se manter – ficaram pra escanteio,  porque foram incorporadas pela geração anterior, os pais e mães desses jovens atuais.  Ao invés do contentamento com o concreto, fica sempre o vazio de um abstrato que nunca acontece – trabalhar é chato, o emprego não está bom, não me encontro nos estudos, etc.

Adicionado a isso vem a internet e o uso das redes sociais, em que esses jovens querem transmitir uma ideia de si mesmos que corresponda a essas aspirações impossíveis e distantes do que é real. Aí que todo mundo parece legal, fazendo coisas legais, sempre no badalo, com amigos todo dia e companhia toda hora. E aí que a grama do outro parece sempre mais verde, e vem o tal descontentamento.

O Facebook virou um vício moderno – você pode fazer dele seu jornal pessoal, em que você é o editor, redator e jornalista. Seu público são seus amigos que obrigatoriamente vão ver aquilo que foi publicado, pois o foco é o que está sendo divulgado pelos outros.

Principalmente, a esperteza da coisa é que é multifuncional. Se não gostar muito de compartilhar seus pensamentos, você pode usar os joguinhos, ou conversar com seus amigos, ou entrar em “grupos” que tenham informações úteis para você. Ou seja, o negócio faz tudo.  Concentrou várias funções ao mesmo tempo, e atende às principais necessidades do mundo em rede, por isso,  a atual dificuldade em se livrar dele, ou substituí-lo. Sem utilizá-lo você… você…. vira um homem das cavernas? Bom, conheço (ainda!) pessoas que não tem facebook e vivem normalmente. Imagino que percam oportunidades que essa conexão múltipla e multifacetada pode trazer. Mas, ainda sobrevivem. E vivem normalmente. E bem, por sinal.

Pensando na vida pré facebook e pós facebook…. Parece que hoje criou-se a necessidade de divulgar. Você divulga a mídia que quiser, texto, vídeo, imagem, criação própria ou alheia, e nada mais é segredo. A graça é publicar. E essa graça só se completa com a reação do público – o botão curtir. Isso tem seu lado interessante, pois uma ferramenta que permite compartilhar realmente fazia falta na era pré facebook – as boas ideias, a comunicação, a velocidade da informação, tudo agora gira e pode ser exposto – a exposição às vezes é interessante e saudável.

Porém, parece que a vida com o facebook torna-se uma vida de exposição, ou “vida vitrine”. Cada coisa legal que alguém pode estar fazendo em um canto xis do universo precisa ser fotografada, divulgada, comentada. E isso se junta com a tal geração infeliz, e vira algo meio doente/ ridículo.  Aquela viagem que você fez, aquela festa em que foi com seus amigos, a roupa nova que você está usando, seu reflexo do espelho do banheiro, precisam ter uma foto publicada no face. 

As pessoas não conseguem mais viver suas vidas sem pensar na possibilidade de exposição. Cada coisa interessante que vivem parece estar carimbada com o logo do facebook.

E pior: algumas pessoas usam essa ferramenta como um “book” pessoal. A pessoa divulga a própria cara nos mais diferentes ângulos, gêneros, números e graus, e faz isso só em função de ter curtidas, ou comentários. Talvez tenha-se criado uma autoestima dependente de exposição e comentários, ou pior, aprovação social obsessiva – vai me dizer que tirar uma foto da própria cara no espelho do banheiro e divulgar dizendo “bom dia” não é obsessivo???

Algo que antes provocaria reações do tipo: que vergonha, só mostro essa foto pra minha mãe e a minha vó, agora tornou-se normal.

Jogo dos 7 erros para achar uma péssima publicidade

ltaqIndia das Oropa

Eu vejo 3 ERROS nessa foto que mostram o que é uma publicidade ruim:

1. Tentativa totalmente fail de contextualizar a imagem com a marca, e a Amazônia. Desde quando as pessoas da Amazônia são loiras de olhos azuis? Só se forem os Europeus que estão lá catando guaraná pra exportar. O mesmo guaraná que está no cabelo da mulher: tentativa de regionalizar o “Amazon” pelo guaraná, mas a total desvalorização da fisionomia de verdade dos habitantes. As pessoas da Amazônia usam uma coroinha de Guaraná?

2. Original: Não vi nada de original na imagem. Talvez nos sabores da bebida, até que sim, porque são diferentes (coco, guaraná, açaí). O que poderia ser legal e algo que se liga à região Amazônica – já que original remente a “origem” – torna-se totalmente nada a ver com a imagem veiculada – sem traços típicos –  e nada a ver com o slogan – não ressalta os sabores, mas um “original” que de “origem” não tem nada… e algum “selvagem”.

3. Selvagem: bebida selvagem? Porque os sabores remetem à “selva” Amazônica, ok, mas essa foto não tem nada de Amazônia. O foco é uma mulher com traços europeus, com cara de “ai se eu te pego”. Então o “selvagem” acaba associando-se à imagem da mulher e sua expressão, muito mais do que remetendo à Amazônia..

Tá, selvagem é a mulher, a Amazônia ou a bebida? É pra pessoa fazer um mix dos três, e beber a bebida como se estivesse bebendo a mulher? Apelação para a sensualidade feminina ao invés da valorização dos sabores da bebida, que é o que a pessoa vai beber de fato. A bebida é tão ruim que a pessoa tem que pensar que está comprando uma modelo?

Pior, a Amazônia é remetida aqui como: “europeia bonita” e “selvagem”, não no sentido de “selva” nem “floresta” nenhuma, mas no sentido de “lugar de mulheres selvagens ai se eu te pego”. E a mulher como “bebida”.

Esse é só um exemplo de várias de nossas publicidades fail. Me pergunto onde os publicitários estão se formando. Ou, a mídia acha que ninguém está pensando……

Pelos meus fones naturais ouço a rádio ônibus

Não conseguiria andar pela rua todo tempo com fones nos ouvidos. Preciso ouvir os barulhos em volta. Isso ajuda na minha concentração, e atenção com as coisas e pessoas ao redor. Ficaria muito desatenta com um barulho no meu ouvido que não fosse o do ambiente.  E até meio desnorteada, tipo um gato com o rabo amarrado.

Acho que há coisas demais pra prestar atenção ou se distrair, para ficar só focado em uma música. O ambiente tem muitos detalhes pra prestar atenção. Pra ficar alerta, mas que são interessantes também. Ouvir o som da rua, das pessoas, do lugar em que estou, isso até me agrada de vez em quando. Por exemplo, é interessante ouvir conversas aleatórias de pessoas por aí.

Além do que, acho meio perigoso ficar andando por aí ouvindo uma música direto nos ouvidos. Ouvir ajuda muito na noção de espaço, o que é fundamental enquanto se anda pela cidade. Muitas vezes que alguém estava andando no meio da rua sem dar passagem, ou sem andar em linha reta, quando dei uma olhada mau humorada com vontade de fazer uma careta vi que a criatura estava de fones. Tinha que ser.

Até gente dirigindo de fones tem.  Isso deve causar acidentes! Mas ninguém parou ainda pra fazer uma pesquisa sobre isso. Ou, é mais perigoso que as pessoas entendam mal e pensem que é pra deixar de usar fones, se tornando um show andante de música chiada.

Enfim, eu não perco a chance de me surpreender com o que fala o povo por aí. Talvez, aqui em São Paulo isso seja quase uma experiência antropológica. A divisão da sociedade em classes sociais e a diferença entre elas faz com que as pessoas sejam muito próximas das outras que são parecidas.

O único momento em que as classes sociais  se encontram é na oferta-procura de trabalho. E este não é um espaço em que é sempre possível trocar muitas opiniões. Alguns integrantes desses dois grupos  até se desagradam se o contato atinge esse ponto. Estão tão fechados em seu pequeno meio, que a noção de um “outro” é apenas funcional, quase insignificante. Não chega a compreensão de que esse “outro” possui outra realidade, e logo, opiniões e um jeito de entender o mundo, diferentes.

Acho que o ônibus é um espaço em que essa troca é possível, pois todos encontram-se como iguais. Todos espremidos. Apesar de que o transporte público ainda concentra maior parte da população com menor poder aquisitivo. Marca da desigualdade de renda, que causa desigualdade nas condições de vida, e isso se reflete em desigualdade no tratamento entre as pessoas, tornando-nos uma sociedade polarizada classe média x periferia. No ônibus, apesar dos pesares, é um pequeno momento em que a barreira se rompe, pelo menos um pouco.

Nas conversas de ônibus, tem uma coisa que me chama atenção e que já ouvi mais de uma vez. Exemplos:

“Esse cruzamento é muito perigoso, e o ponto de ônibus é muito perto dele. Um motoqueiro já sofreu um acidente aqui. E ninguém faz nada. Quero só ver se um ricaço que morrer, daí vão fazer alguma coisa.”

“Esse povo fazendo manifestação e passeata até hoje, não tem o que fazer. Estão lá na frente do palácio do governo. E ainda tem a cara de pau de escrever que aceitam doação de comida. Vai ver se a conta deles não é gorda! Os ricos que passam dão comida, ainda por cima.”

“Para os pobres ninguém faz nada, agora vai ver se for pro rico. Se a gente morrer tudo bem, agora vai ver se forem eles.”

E coisas do tipo.

Na minha vida até agora, tive oportunidade de não ter os olhos vendados pra o lugar em que vivo. É cruel o dinheiro que você tem definir quem você é, e sei que no lugar em que vivemos isso acontece. Sei da desigualdade social e do sofrimento de pessoas que não tem acesso a todos os benefícios que o dinheiro poderia oferecer. Mas, no momento em que isso vira comentário vazio, e se torna uma ladainha, o problema de verdade acaba sendo esquecido. Veste-se uma capa de “sou relegado”, ou “coitado, é pobre” e pronto.

Claro que é bom que todos tenham consciência das injustiças sociais. Mas acaba soando como muro das lamentações. E cria uma generalização. E a ideia de um inimigo que causou esse problema, mas que não é o motivo real dessas injustiças. E polariza tudo ainda mais.

A educação que ainda falta não vai fazer apenas com que as pessoas tenham consciência do problema. Mas que simplesmente ele seja mudado. E pronto.

Não, você não vai ficar com a cara da modelo da embalagem

O comércio nos bombardeia todos os dias com milhares de produtos através da publicidade. Isso já sabemos. Mas mesmo sabendo, ainda somos bastante influenciados, e compramos produtos e ideias vinculadas nos anúncios, como um brinde extra. E isso também sabemos. Claro, não estou dizendo nenhuma novidade até então, além do que só existe vendedor, porque há comprador, claro. E isso tudo é muito bem aproveitado. Não sei se igualmente por ambos os lados, vendedor e comprador.

Enfim, dentre tudo isso que nos é oferecido, há a indústria da beleza, com seus anúncios, imagens, ideais e padrões que acabam influenciando pelo acesso que tem a nós através das mídias – destaque para o último anúncio sobre isso que pululou no meu facebook, que dizia mais ou menos: “este alimento estranho está sendo lançado no Brasil e a Sandy perdeu vários quilos com ele” com a foto do que parecia algo como várias gemas de ovo juntas.

Dentre absurdos escancarados e outros mais escondidos, algo me chama a atenção.

Enquanto almoçava num restaurante um dia desses, vi uma moça, sentada de costas pra mim, de forma que só via seu cabelo, que era tingido. Não sei se inteiro, mas nas pontas era pintado de loiro, aquela moda das mechas californianas, eu acho. É incrível a velocidade com que essa moda das mechas loiras nas pontas do cabelo se propagou. Não sei nem quem começou com isso.

Independente de quem foi, sempre me chama a atenção a quantidade de pessoas – principalmente mulheres – que vejo com cabelos tingidos. É até difícil de perceber às vezes se uma pessoa tem cabelo natural ou não. Por exemplo, nem imaginava que uma prima minha tingia o cabelo, até que um dia ela mencionou que precisava pintá-lo. Até me espantei, pois achei que aquela era a cor natural. Talvez as tinturas estejam desenvolvidas ao ponto de não mais aparentar artificialidade?

Ao meu espanto, minha prima respondeu que sim, castanho era sua cor de cabelo natural. Porém ela pintava com um outro tom de castanho, porque seu cabelo natural era “castanho sem graça”.

Não, a questão aqui não será uma técnica de como descobrir sem perguntar se o cabelo de alguém é natural ou não. Nem a indicação de quais tinturas mais tecnológicas e avançadas para esconder sua cor natural ao máximo possível.

A questão é que as pessoas exageram, ao ponto de pintar o cabelo de uma cor que elas já tinham antes. Então elas devem pintar só se for de uma cor bem diferente? É a nova tendência?

NÃO! Pessoas que estão cada semana com um tom de cabelo diferente também me assustam, e muitas começam numa idade bem precoce. Talvez isso aconteça pelo acesso ao produto: tintura de cabelo vende igual banana. Pelo menos parece, com a quantidade de pessoas que conheço que tingem os cabelos. Ou, pior, talvez isso aconteça por um problema mais sério: a falta de valorização pelo que as pessoas têm de natural nelas mesmas.

O que seria, ó céus, um “castanho sem graça”???? E para quê tanta graça no cabelo que tem como função principal proteger a cabeça?

Tudo bem, tudo bem, todos nós nos preocupamos com a estética, não há como ser tão discrepante de todos, pois vivemos em um coletivo, e há questões culturais para todos, e enfim, procurar o que é belo pode ser até saudável. Ok, mas que cor de cabelo tem graça, azul, rosa, verde, roxo? Cores impossíveis, pois só isso parece ter graça para alguns. Ou as cores dos cabelos brilhantes, sedosos, das modelos nas propagandas de tinturas e shampoos na tevê? Ou as perfeitas cores de cabelo das belas modelos nas capas das embalagens. O que é também impossível no mundo real fora da propaganda.

A quantidade de cabelos tingidos pode ser uma combinação de acesso fácil ao produto + assédio da publicidade + ideologia do “cabelo legal”. As atrizes de Hollywood cada vez aparecem com um cabelo diferente, mas o caos que há por baixo das raízes e a destruição causada por alterar o cabelo excessivamente não é assim tão explícito quanto seus “belos cabelos”, e nem o dinheiro gasto para reparar isso.

Agora vermelho escuro, agora vermelho mais claro, agora meio caju, agora laranja, agora com mechas loiras, agora preto, agora castanho mel 50% acobreado com toques de lavanda, OMG! Por que essa volúpia de ver a própria cara com tantas cores diferentes de cabelo? Se a curiosidade é tanta, não bastaria um aplicativo que fizesse isso e pronto?

Realmente, eu não entendo. Ou, algumas pessoas que não entendem que elas tem a cara que tem independente do cabelo. Tudo bem, a estética pode ser saudável. As mulheres parecem valorizar bastante o cabelo, acho que posso dizer, que pelo menos a maioria é assim, pois influencia na aparência, deixa o rosto mais bonito, etc e tal e sei lá mais o quê. Pode ser uma vaidade natural e não destrutiva. Eu só não entendo por que essa vaidade não pode ser expressada e utilizada dentro das características naturais de cada um. Que se tenha cuidados, procure-se a beleza, mas dentro de seus limites e a seu modo de ser. Sem danificar o que se tem como natural e saudável.

O que vai em uma tintura de cabelo:

http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-03-27/anvisa-autoriza-uso-de-acetato-de-chumbo-06-em-tintura-de-cabelo

Infelizmente, no Brasil há o uso de substâncias proibidas em outros países, como o acetato de chumbo, que pode causar reação molecular e até câncer, mas as empresas defendem seu baixo custo e poder tingidor, ou alisante, desse elemento e dentre outros.

Pra que ser saudável se pode-se ser bonita, não é mesmo? Se pintar o cabelo é tão bonito. Ou dizem que é. E o perigo das substâncias depende da interação, do meio, e até por pesquisas parece não mostrar efeito. Pois é, talvez as consequências se mostrem só a longo prazo mesmo, pois a geração “produtos pra tudo” é um fenômeno atual.

Mídia informativa, mídia seletiva, mídia dedutiva, mídia imparcial (?). Estrelando: Ahmadinejad

Em 3 de agosto, a BBC publicou em seu site uma matéria com fotos e frases de Ahmadinejad, de nome: “Mahmoud Ahmadinejad: In his own words” (Ahmadinejad: “em suas próprias palavras”).  Cada foto foi ilustrada por uma frase do presidente – apenas o que ele mesmo já disse ao longo do mandato.

Porém, a notícia não apresenta frases aleatórias do presidente, mas apenas as que têm um teor conservador, rígido e extremista. “Mas apenas estamos contando o que ele mesmo disse!” é a camuflagem de neutralidade dada, porém o jornal conduziu cada parte dessa notícia com ironia.

Na minha opinião, as frases associadas a fotos do presidente com as mais diversas caras e em mais diversos ângulos, parece transmitir certo caráter cômico, colocando-o como um personagem mandão e sem noção dizendo suas frases conservadoras em uma história em quadrinhos. Como se a BBC fosse o narrador, mediando personagem e leitor, “explicando” o contexto das frases como se estivesse apenas apresentando os fatos.

De fato, Ahmadinejad pode ter esse comportamento ou essa postura, o que já não nos surpreende vindo de um país do oriente árabe, que tem essa marca. Bom, se não tem, pelo menos é o que nos parece.

Não temos como verificar a veracidade de cada fato que acontece no mundo pessoalmente. Logo, acabamos adotando uma ideia geral com base no que vemos e lemos em jornais, revistas – a partir de fragmentos de informações, montamos um “todo” sobre determinado assunto. Esse “todo” constitui-se de pedaços do que vemos e ouvimos, misturado com nossas próprias percepções.

A mídia, por ser o veículo central de propagar informações, nos fornece muitos desses “fragmentos” a partir dos quais montamos ideias. O que é uma solução e um problema: através da mídia temos acesso a todo tipo de informação, porém essa mesma informação nos é dada e tirada de acordo com a mídia – ela nos dá e tira o que quer, digamos assim.

Logo, a veracidade do que acreditamos, é a veracidade que a mídia atribui a tal coisa, o que deveria ser a simples e pura transmissão dos fatos – a “neutralidade” do discurso midiático. O que já sabemos que não acontece, pois em cada neutralidade pode haver um ponto de vista. É melhor saber disso do que não saber – e muitos não sabem – porém mesmo sabendo e sempre com um pé atrás, ainda acreditamos em uma notícia ou outra, para não ficarmos neuróticos, ou teoristas da conspiração, ou nos isolarmos de tudo e todos. Afinal, ainda precisamos de informação. Para sermos sociais, para sabermos sobre o mundo ao nosso redor, para termos o que conversar no elevador… é, o poder do coletivo. Dessa forma, a mídia tem dois recursos que a fazem tão poderosa:

– a força do coletivo que tem acesso a ela, e depende dela

– seu aparente formato de “neutralidade”, que pode comportar os mais diversos pontos de vista “por baixo do pano”

Não sou favorável ao governo de Ahmadinejad, nem acho ele legal, nem nada, mas essa notícia divulgada pela BBC sobre ele mostra essa parcialidade da mídia, camuflando sua opinião embaixo dos fatos. Todas as frases que cada foto apresenta parecem incutir a ideia: “Ahmadinejad é conservador e é mau”; parecem transmitir essa única verdade, porém consigo enxergar margem para outra interpretação.

Vocês podem conferir as 10 frases e fotos AQUI e abaixo coloco minha interpretação sobre algumas delas.

– frases 2/ 10 e 3/ 10: Todos sabemos que o Holocausto foi um dos mais cruéis acontecimentos da humanidade. Conseguimos nos sentir completamente compadecidos às vítimas, que vivenciaram um terror de tal grau que é quase inconcebível. Logo, o ocorrido assume caráter quase sagrado em questão de respeito. O presidente simplesmente desmentir isso, dizendo que é “algo fabricado” é completamente chocante e desrespeitoso. Pronto, é essa ideia que fica.

Porém, os países árabes, assim como o Irã, têm um problema histórico com os judeus: a criação de Israel. Isso envolve questões religiosas inflexíveis de ambas as partes, provoca guerras, ataques, refugiados e feridos. Esses dois lados sustentam um ódio mútuo. Logo, sob esse contexto, não é esperado algum respeito de graça entre ambos. Claro que é o que deveria ser feito, e o presidente negar o Holocausto não contribui em nada para algum acordo. Porém este não é estimulado de nenhum lado, por bombas, armas e guerra, e não uma simples afirmação.

Frente ao problema, uma afirmação como a 2/ 10 assume uma proporção minúscula. A sociedade se influencia muito com palavras: e os atos desumanos que acontecem na região todos os dias? Isso envolve os governos de Israel – apoiado pelos EUA – e os palestinos – apoiados pelos árabes, logo, todos os governos envolvidos tem responsabilidade sobre o problema, mortes e massacres que acontecem, independente de uma frase negando o Holocausto – tragédia tenebrosa, porém que já aconteceu e terminou, e não deve ser associada a fatos presentes.

Além disso, a credibilidade ao estado de Israel muitas vezes tem o Holocausto como argumento, e o compadecimento da população sobre esse acontecimento (terrível) muitas vezes tende a ver os judeus como “sofredores”, e seus adversários como “opressores”. Se os árabes negam a criação desse estado – em suas versões mais radicais – é óbvio que tentarão descartar qualquer argumento que o sustente.

– frase 4/ 10: essa foi bastante infeliz. Porém a repressão contra homossexuais que acontece no Irã (homossexualismo é considerado crime, condenável a morte) envolve um sistema de governo conservador e um estado religioso, e não a pessoa do presidente em si. Não que isso o isente de responsabilidade, porém esse é outro argumento usado para rebaixar o país e sua pessoa. Ahmadinejad só representa e age de acordo com aspectos culturais do país. Porém, usar a burca é cultural, e não deixa de ser um absurdo, por exemplo – não é porque um país segue certa cultura que isso é justificável, e seus habitantes merecem liberdade. Porém isso envolve muitos fatores além da pessoa do presidente.  Pra mim, outro argumento fail contra ele.

E pergunto: mesmo nos países ocidentais, já estamos completamente livres da homofobia? Temos a cara assim tão limpa para condená-lo pela sua afirmação?

– frase 7/ 10: o ápice da ironia – demonstra que a matéria quer apontar justamente o oposto: o Irã e seu presidente não são nada liberais. Isso parece óbvio para nós, devido ao modo de vida que sabemos que a população é submetida, e as afirmações conservadoras do Ahmadinejad que também sabemos. Pois é, sabemos pela mídia.

Conheci um brasileiro que passou um ano no Irã.  Não poderia deixar de perguntar sobre o conservadorismo de lá, principalmente relacionado às mulheres. E, segundo ele, as pessoas agem como querem dentro de suas casas. Ele não deixava de ir às baladas, festas, e beber como fazia por aqui – e as meninas podiam fazer o mesmo. Na Índia, por exemplo, país que sabemos ter uma cultura machista, mas que recebe bem menos bombardeio ideológico da mídia, meninas não podem sair sozinhas de casa quando escurece sem correr um grande risco. No Irã, havia meninas voltando sozinhas pra casa de noite naturalmente. Apesar disso não ser a mais alta expressão de liberalismo, imaginamos que a Índia seja mais machista que o Irã antes de irmos lá pra ver?

– 10/ 10: Nesse caso, a legenda quer dizer que Ahmadinejad é favorável ao governo de Chávez e ainda por cima o achava bom caráter. Mostra dois governos abolidos pelos EUA, e unidos.  A interpretação pró EUA seria: “olha como o Ahmadinejad é mau, ele era até amigo do Chavez”. Porém esses governos só são abolidos pelos EUA por irem contra suas diretrizes, que apesar de serem consideradas “leis gerais”, beneficiam os EUA e os países no poder, e até o intensificam.

Resumindo: Se a questão fosse apenas combater o conservadorismo, defender os direitos humanos, a flexibilidade do pensar, encontrar soluções pacíficas, seria ótimo. Porém, criar a ideia “Ahmadinejad é mau” só vem a calhar para os EUA sustentarem uma posição política contra o Irã, usando todas essas questões ao seu favor para denegrir o país, em função de seus próprios interesses. Mas quem vai tentar ver outro lado nas respostas cruéis do horrível do Ahmadinejad, não é mesmo?